quarta-feira, 28 de abril de 2010

Por trás dos bastidores e o Iraque

Intervalo de ensaio no Centro de Evangelização em Haifa, do 'Canto das Írias' que será apresentado no Halleluya. Praticamente todos de casa entraram na dança e viraram írias, Danko, Verdade... O rapaz de trás, Elias, que é da Obra, fará o papel de Jesus e o Homem será o Maroun, jovem de 17 anos de Nazaré, divertido, agitado, sabe dançar salsa e parece animado mesmo que muito verde e desconcentrado ainda. Me lembrou o Marquito meu sobrinho. Na hora da foto ele sumiu. Depois eu o pego de jeito já que vamos contracenar.


O mesmo lugar, a mesma, somente que dessa vez lembrei de entrar na foto. Qualquer atividade do Shalom tem que ter a hora da merenda!

Esta é a Yara que está se revelando uma grande Diretora de Arte. Ela é cheia de talentos, canta e dança, é magrinha e ágil e tem sido a responsável pela tradução - em ir atrás de nativos que fizessem a tradução das falas e das músicas - e de acompanhar no estúdio a gravação das vozes com os textos em árabe já que ninguém teria condições de atuar em árabe competentemente. Uma coisa é ser simples e ter fé e fazer o melhor que se consegue, outra coisa é fazer papel ridículo e levar as coisas de Deus a serem desacreditadas. Ela tem dado um show de oferta de todos os talentos que tem para que o Senhor os multiplique e alimente a muitos. Valeu Yara! Essa é uma exclamação que ela gosta de usar...


As írias a postos com Jesus atrás, para o começo do ensaio. A concentração é total! Bendito seja Deus! Ainda precisa de muito ensaio...

Falando nele, é neste ritmo que temos vivido, para além de nossas atividades normais de trabalho e oração. Claro que os apostolados estão suspensos e todo tempo livre e os extras possíveis giram em torno do Halleluya, dos ensaios e de correr atrás do que precisa ainda ser feito para tudo acontecer. São tantas pequenas batalhas, são tantas necessidades e o tempo mantém seu ritmo constante que nos parece veloz demais... mas cremos que vai dar certo. Tem muita gente rezando e a oração sempre fortalece quem a recebe.

Sinto aos poucos o efeito benéfico da homeopatia mesmo que ainda haja muita instabilidade no meu ânimo, como ondas que sobem e descem. Nos dias de subida porém, tenho tido boas idéias para melhor trabalhar e enfrentar as misérias de cada dia. Por esta frase dá para perceber que a maré hoje está baixa. Mais ou menos...

Sábado tivemos um evento importante em Ibillin, cidade ao norte da Galiléia onde o nosso bispo Elias Chacour viveu como pároco por 38 anos e fundou o grande complexo de educação chamado MEEI (Mar Elias Educational Institutions). Este evento reuniu as autoridades católicas dos três ritos mas representativos da Terra Santa, melquita, latino e maronita para um dia de solidariedade para os cristãos do Irque que praticamente não existem mais, foram dizimados. Como os cristãos têm sofrido perseguição!

O evento começou com a Eucaristia em rito maronita, seguida de uma sessão de pronunciamentos de apoio e de denúncia, como um grito de socorro para o mundo, para que os cristãos sejam protegidos e respeitados no Iraque. Eles valem mais que todas as baleias e golfinhos e animais em processo de extinção! Foi feita uma coleta entre todas as paróquias melquitas na semana anterior, como também no dia, e foram arrecadados aproximadamente 40 mil dólares a serem enviados pelo Vaticano às autoridades e comunidades católicas, o pequeno, assustado e mirrado rebanho sobrevivente.

Somos um corpo, o Corpo do Senhor, e esta parte do corpo está sofrendo assustadoramente...

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Está tudo bem, que ninguém se preocupe. Fiquei uma semana sem computador e por estar às voltas com o Halleluya temos tido muitas atividades extras e aventuras, já que todos da casa estão envolvidos nos preparativos e até nos ensaios e danças do show 'O Canto das Írias' que vamos apresentar, e por isso deixei o blog sem notícias.
Mas o Halleluya promete ser demais, com a graça de Deus. Somos poucos, o tempo voa, os desafios enormes, os jovens desistem, os padres reclamam porque não entendem bem o que é, a Lorena fica presa uma semana no exterior por conta do vulcão que voltou a cuspir depois de 200 anos, enfim, é uma maratona, mas a gente ainda consegue se divertir! Basta lembrar de ontem a noite com a Cristina, Leandro e Viviane aprendendo os passos enquanto a Kézia cortava umas toalhas velhas para fazer o figurino das Írias. É muita coragem e criatividade, dá gosto! É muita vontade de fazer o melhor mesmo que as condições sejam mínimas, sempre na esperança de que quando a Providência Divina quiser ela dará tudo. Talvez seja esta uma das verdades a que tenho me convertido na experiência comunitária como Shalom: para Deus tudo, para Deus o melhor, para Deus todo o amor, mas sem esperar a perfeição humana e todas as circunstâncias favoráveis ou condições financeiras. O pão e o peixe são multiplicados na hora que são distribuidos.
A Yara está em Nazaré num estúdio gravando as falas e as músicas que foram traduzidas para o árabe com um esforço enorme. É uma beleza perceber a generosidade e participação de cada um naquilo que cada um pode dar, mesmo que nos entremeios haja as dificuldades e desistências. O reino de Deus se constrói assim e acaba sendo de todos. O Senhor está no nosso meio e isso a gente toca com os dedos! Domingo tem ensaio geral e depois eu conto qual será o meu personagem.
Peço oração para a Jamaat Salaam (Comunidade Shalom em árabe) e para o Halleluya Israel que acontecerá dia 7 de maio em Haifa, a partir das 15h mas que será um evento para toda a Galiléia. Esperamos que se torne anual, um evento anual de evangelização. O bom é saber que Jesus Ressuscitado nos disse no Evangelho na semana passada que nos predeceria na Galiléia e nós já chegamos, literalmente, e estamos mais uma vez a espera de sua manifestação gloriosa.
Acho que eu agora esnobei!
PS - Acabamos de receber a confirmação do Multimedia Center dos Franciscanos de Jerusalém que eles vão gravar todo o evento para a televisão! Bendito seja Deus! Shalom!

domingo, 11 de abril de 2010

Shalom a todos vós! A Páscoa!

Primeiramente algumas fotos
Domingo da Ressurreição com Cristina e Viviane e todos os membros da Pastoral Hebraica, judeus católicos espalhados em quatro núcleos por toda Israel que se encontram na Páscoa, este ano em Kyriat Yearim, uma cidadezinha perto de Jerusalém. Nesta cidade a Arca da Aliança ficou por algumas dezenas de anos, 1.000 anos antes de Cristo, até ser levada jubilosamente pelo Rei Davi para Jerusalém... mas esta história eu conto outro dia.

Igreja de Nossa Senhora, Arca da Nova Aliança, das Irmãs de S.José da Aparição, uma congregação que eu só vim conhecer aqui.


Esta foto ficou muito fofa: as mocinhas foram batizadas em 2009 e são irmãs. A do lado da Viviane chama-se Daniel (é estranho mas é sem a mesmo), e tem 15 anos, a de vermelho chama-se Elenora, de 13, e a caçula Haddass, de 11, me faz lembrar a Haddass do filme Yentl.


Eu com um dos meus ídolos, diz o povo lá de casa: padre ou Fr. David Neuhaus, jesuíta. Já falei várias vezes dele aqui no blog. É aquele de família alemã judia, fugida na guerra para a África do Sul, que mandou o filho para uma escola rabínica em Jerusalém e o viu convertido ao cristianismo e ao catolicismo na juventude. Ele recebeu o batismo com 26 anos e foi ordenado sacerdote aos 39 anos neste exato local, há dez anos, com o lema da Palavra de Deus tirado do profeta Isaías: "Eis-me aqui, envia-me Senhor!". Nada me tira da cabeça que um dia ele vai ser bispo importante na Igreja. Instrumento de reconciliação e de diálogo, além de caráter de liderança muito evidentes agregados a uma cultura invejável, ele já tem. Que o Senhor o abençoe!




Shalom! É assim que Jesus cumprimenta e surpreende os apóstolos aparecendo pela terceira vez na oitava da Páscoa, dando-lhes o dom do Espírito, como que antecipando Pentecostes, Espírito que é a plenitude de Si mesmo, ou o seu Shalom! Este texto de João 20, 19 e seguintes é o fundamento cristólógico da vocação Shalom e é o fundamento existencial de quem foi chamado por Deus a viver seu batismo nesta vocação específica. É um mistério de amor tão grande e tão maior do que eu compreendo! No entanto sei que participo e contribuo para que ele se expanda, se desenvolva e se firme neste mundo tão assustadoramente mergulhado nas trevas e desejoso de mergulhar nas trevas, o que torna a situação ainda mais dolorosa.
Tenho me tornado cada vez mais uma pessoa de esperança porque tenho aprendido a beber da fonte verdadeira que é Deus mesmo, Ele que é eterno e bom e ama com entranhas de misericórdia cada pessoa e realidade humana. É só olhar para Jesus Cristo e entender, pedir para ter olhos que vejam, coração que ame, inteligência que acolha, vida que experimente. Assim como fez Tomé. Como este apóstolo é importante para nós da Comunidade Shalom! Por que nele nós nos reconhecemos na necessidade de tocar e experimentar e ver e sentir a presença pessoal de Jesus, o toque do seu Amor e da realidade sobrenatural de Deus.
Engraçado que muitas e muitas vezes criticamos a atitude de Tomé mas Jesus vai até ele com ternura, paciência e amizade profundas e o deixa fazer a experiência pessoal da Ressurreição. Jesus o leva a crescer na fé e na visão sobrenatural da vida, e Tomé entende com a cabeça, a alma, os sentimentos, que todas as palavras do Senhor se cumpriram como também todas as do Antigo Testamento. Jesus é o Messias, o Salvador, a fonte perfeita e o próprio Shalom do Altíssimo, revelado em Jesus como Pai.
E quem fez e refez e refaz esta experiência batismal a cada Páscoa não tem outro desejo do que continuar testemunhando e dando a vida para a evangelização, seja formalmente, como é o meu caso, seja vivendo simplesmente (simplesmente?) como ressuscitados, como acontece com milhares e milhares de jovens e adultos, homens e mulheres espalhados pela face da terra, que amam, sofrem, trabalham, lutam, vivem como todas as demais pessoas, sem ser iguais a elas por causa do Ressuscitado que nelas, vivo está.

Minha Páscoa e oitava da Páscoa foram ricas e muito ocupadas. Os funcionários do asilo que são cristãos estavam de folga, e foram os de casa que tiveram que cobrir todos os horários sem contar as subidas e descidas para Haifa, para algumas cerimônias, de ônibus e de taxi, o que representou muito tempo de viagem. É que depois do acidente ficamos sem o carro que pertencia ao asilo e ficava sob a responsabilidade da Comunidade, e transporte agora ou é de ônibus, eventualmente de carona e aos sábados, por conta do Shabat, de taxi, porque não há transporte público.
Eu mesma não fui para o asilo, mas nos alternamos como missão nas celebrações pela manhã na paróquia do profeta Elias em árabe, no rito católico melquita, e à tarde na pastoral hebraica com as celebrações no rito latino em hebraico. Tudo uma grande beleza, se bem que no meu pobre entendimento e sensibilidade, falta um pouco da graça e da unção da piedade, do gozo espiritual de se celebrar vivendo e não simplesmente lembrando... É fazer memória viva. É atualizar a memória para que ela se perpetue e não somente fazer lembrança. É verdadeiramente ser tocado e tocar o coração transpassado do mais Belo dos Filhos dos Homens e ser transportado e inundado de amor, pois Ele está vivo e é real!
Seja como for porém, e para sempre, com toda a corte celeste de anjos e santos, dizemos e cantamos:
El Messih Kam! Rrá Kan Kam!
O Senhor Ressuscitou! Aleluia!
Sim, verdadeiramente ressuscitou! Aleluia!

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Pequenas conversas

Foi no dia 25 de março que isso aconteceu. Eu estava em Nazaré celebrando a grande festa da Encarnação de Jesus no ventre da Virgem Maria e também meu segundo aniversário de consagração. A basílica superior estava se enchendo de peregrinos do mundo inteiro e de fiéis e religiosos que vivem espalhados na Terra Santa. Eu cheguei um pouco mais cedo para pegar lugar na ponta do banco, nem tanto atrás nem tanto na frente onde ficam o coral e geralmente as pessoas mais velhas - eu estou quase entrando pra essa turma. Quando começou o canto de entrada apareceu a Ir.Paul (é isso mesmo Paul e não Paula), que é de Isifya da congregação das Carmelitas de S.José onde nós assistimos missa de segunda a sexta, completamente perdida procurando um lugar. Naturalmente dei o meu, e fui me dirigindo para o fundo da igreja quando um casal de irlandeses, descobri no fim da missa, me chamou para ficar do lado deles esprimidinha entre eles e uma senhora. E a celebração corria solta alternando orações em árabe e cantos em latim e a senhora do meu lado com fisionomia de gringa, nos seus 60 anos, acompanhava tudo com jeito de quem sabia ler música com facilidade. De repente, quando começou a oração eucarística, ela se virou para mim, perguntou se eu falava inglês, e me fez uma pergunta inusitada: 'eu já posso ir embora ou ainda tem alguma coisa importante para acontecer?'. Por causa da minha fisionomia surpresa ela emendou: '...eu não sou católica'. Pensei comigo mesma: 'deve ser protestante'. Respondi então, rapidamente, que ela esperasse a consagração e a hora da comunhão, o ápice da celebração, para poder se retirar, e comecei a instrui-la. Na hora da consagração eu me ajoelhei e fiz sinal para ela fazer o mesmo e a resposta que recebi me surpreendeu mais uma vez: 'sou judia, e judeus não se ajoelham...' e permaneceu sentada. Continuo me perguntando até agora o que isso significa. Quando me ergui a senhora explicou-me em breves palavras, que nunca tinha entrado numa igreja na vida, que morava em Jerusalém e que estava ali acompanhando um casal francês, amigos católicos, que peregrinavam na Terra Santa. Eu achei interessantíssimo conhecer uma pessoa que nunca tivesse entrado numa igreja na vida! Mas o mais lindo foi o que se seguiu: eu perguntei se ela sabia o Pai-Nosso e ela disse que já tinha ouvido falar. Então juntas, uma cristã e uma judia, de livrinho em mãos cantamos em árabe na casa de Nazaré, a oração perfeita que o Senhor nos ensinou, pedindo que o Seu Reino viesse. Fiquei profundamente emocionada com um gosto suave na alma, fruto da oração escondida mas não menos efetiva pela unidade e pela paz na Terra Santa. Era já uma antecipação da Páscoa do Senhor!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Ele está vivo!

Que mais precisa ser dito além disso, que Jesus está vivo?! Que maior descoberta pode existir senão conhecê-lo pessoalmente? Mais que idéias, palavras, textos, argumentos, conceitos, sínteses e especulações, o segredo da vida plena está nele, Jesus, o Cordeiro, o Amado, o Vivente, o Senhor, que prova de uma vez por todas que é Deus quem vem ao homem e que o ama perdida e eternamente. Nada pode nos separar de Deus e nunca mais estaremos sozinhos!

Se as guerras comem soltas na Turquia ou na Rússia e a violência procura espaço na vizinha Jerusalém e em tantas cidades é porque há poucos corações como o de Madalena que querem encontrar o seu Senhor e continuam crendo que sem a força do Ressuscitado as trevas podem deixar de ser trevas...quanta ilusão!

El Messih Kam! Rrá Kan Kam! Este é o meu grito e a minha mais profunda alegria e gratidão: o Senhor ressuscitou! Aleluia! Sim verdadeiramente ressucitou! Aleluia!

quinta-feira, 25 de março de 2010

19, 25 e já estamos em Abril

Hoje é aniversário de morte do Papa João Paulo II que coincide com a Sexta-feira Santa, ou Good-Friday em inglês. É bom que se chama Good porque realmente nela o ápide do amor de Deus em Jesus se revelou e consumou a restauração da nossa filiação divina. Tudo está consumado e nada pode reverter ou desfazer esta união de amor entre Deus e a Humanidade. E quando a gente celebra estas festas e faz memória bíblica afetiva, pessoal e comunitária pensando em todas as pessoas de todos os tempos, a alma se enche de tal gratidão que se entende porque ela é eterna para caber este amor sem tamanho...
Está é minha segunda quaresma e Páscoa em terras de Israel e a consciência é outra. O país está em celebração pois esta semana também é a Páscoa dos judeus celebrando a libertação do Egito e, no país, por uma semana não se encontra pão para comprar pois não há mais maná, (só se for de padaria não judia...) e as sinagogas estão em festa. Mas eles não receberam a Luz e o Salvador que de sua raça, o Filho de Davi, se revelou aos homens cumprindo todas as profecias da Lei e dos Profetas.
A quaresma foi iluminada para mim com as festas de S.José e da Anunciação, ambas solenemente festejadas em Nazaré. Somente estive lá no dia 25 pois esta data é meu aniversário de consagração, felizmente, o que me da enorme alegria pela providencial coincidência. O desejo sincero é continuar ofertando minha vida como grão de trigo, que morrendo e vivendo no Pão da Vida, produza algum fruto.
Esta semana e tempo também foram sombreados pelas calúnias e massiva campanha anti-Igreja Católica, anti-Papa Bento XVI, anti-Cristianismo que chega a chocar. Há muitas pessoas arregaçando as mangas e escrevendo em defesa do Santo Padre contra este laicismo falso que tem tom e ação ideológica mais radical que qualquer terrorismo que se teme do Oriente Médio.
Segue abaixo esta análise excelente escrita por um sociólogo italiano que nem católico é, mas que tem justos critérios de análise, conteúdo intelectual, boa fé, boa vontade, ética e um mínimo de sabedoria que é o dom de alcançar a essência das realidades. Boa leitura! Vale a pena, e que o venerável e muito amado Papa João Paulo II interceda por nós nesta Páscoa. Amém!


Padres pedófilos: um pânico moral
Por Massimo Introvigne

Por que se volta a falar de padres pedófilos, com acusações que se referem à Alemanha, a pessoas próximas ao Papa e agora até mesmo ao próprio Papa? Será que a sociologia tem algo a dizer a respeito ou deve deixar o caminho livre para os jornalistas? Creio que a sociologia tem muito a dizer, e que não deve ficar quieta por medo de desagradar este ou aquele. A discussão atual sobre padres pedófilos - considerada do ponto de vista sociológico - representa um exemplo típico de "pânico moral". O conceito nasceu nos anos 1970 para explicar como alguns problemas são objeto de uma "hiperconstrução social". Mais precisamente, os pânicos morais foram definidos como problemas socialmente construídos, caracterizados por uma amplificação sistemática dos dados reais, seja na exposição midiática, seja na discussão política. Duas outras características foram mencionadas como típicas dos pânicos morais.
Em primeiro lugar, problemas sociais que existem há décadas são reconstruídos na narrativ a midiática e política como "novos", ou como objeto de um suposto e dramático crescimento recente. Em segundo lugar, a sua incidência é exagerada por estatísticas folclóricas que, mesmo não confirmadas por estudos acadêmicos, são repetidas pelos meios de comunicação e podem suscitar campanhas midiáticas persistentes. Philip Jenkins assinalou o papel dos "empreendedores morais" - cujas agendas nem sempre são declaradas - na criação e gestão dos pânicos. Os pânicos morais não fazem bem a ninguém. Eles distorcem a percepção dos problemas e comprometem a eficácia das medidas que deveriam resolvê-los. Uma análise errada não pode produzir senão uma intervenção errada.
Que fique claro: os pânicos morais têm na sua origem circunstâncias objetivas e perigos reais. Não inventam a existência de um problema, mas exageram suas dimensões estatísticas. Numa série de valiosos estudos, o mesmo Jenkins mostrou como a questão dos padres pedófilos talvez seja o exemplo mais típico de um pânico moral. Estão presentes de fato os dois elementos característicos: um dado real na origem, e uma exageração desse dado por obra de ambíguos "empreendedores morais".
Primeiro, o dado real na origem: existem padres pedófilos. Alguns casos são ao mesmo tempo desconcertantes e repugnantes, foram objeto de condenações definitivas e os próprios acusados nunca se disseram inocentes. Estes casos - nos EUA, na Irlanda, na Austrália - explicam as severas palavras do Papa e o seu pedido de perdão às vítimas. Mesmo se os casos fossem apenas dois - e, infelizmente, são muitos - isto já seria demais. Mas já que pedir perdão - apesar de nobre e oportuno - não basta, sendo necessário evitar que os casos se repitam, não é indiferente saber se os casos são dois, duzentos ou vinte mil. E tampouco é irrelevante saber se o número de casos entre sacerdotes e religiosos católicos é mais ou menos numeroso do que entre outras categorias de pessoas. Os sociólogos frequentemente são acusados de trabalhar sobre números frios, esquecendo que por trás de cada número há um caso humano. Mas os números, embora não sejam suficientes, são necessários. São o pressuposto de toda análise adequada.
Para entender como de um dado tragicamente real se passou a um pânico moral é necessário saber quantos são os padres pedófilos. Os dados mais amplos foram coletados nos EUA, onde, em 2004, a Conferência Episcopal encomendou um estudo independente ao John Jay College of Criminal Justice da City University of New York, que não é uma universidade católica e é unanimemente reconhecida como a mais autorizada instituição acadêmica dos EUA em matéria de criminologia. Esse estudo nos diz que de 1950 a 2002, num universo de 109.000, 4.392 sacerdotes americanos foram acusados de ter relações sexuais com menores. Desses, pouco mais de uma centena foram condenados por tribunais civis. O baixo número de condenações por parte do Estado deriva de diversos fatores. Em alguns casos as verdadeiras ou supostas vítimas denunciaram sacerdotes já mortos, ou foram consumados os prazos de prescrição. Em outros, à acusação e à condenação canônicas não corresponde nenhuma violação a qualquer lei civil : é o caso, por exemplo, em diversos Estados americanos, do sacerdote que tinha uma relação consensual com uma - ou mesmo um - menor com mais de 16 anos. Mas também aconteceram muitos casos clamorosos de sacerdotes inocentes acusados. Esses casos foram multiplicados nos anos 1990, quando alguns escritórios de advocacia perceberam que poderiam obter transações milionárias com base em meras suspeitas. Os apelos à "tolerância zero" são justificados, mas também não deveria haver qualquer tolerância com quem calunia sacerdotes inocentes. Acrescento que em relação aos EUA as cifras não se alterariam de forma significativa se somássemos o período 2002-2010, pois o estudo feito pelo John Jay College já observava o "declínio claríssimo" dos casos no ano 2000. Os novos inquéritos são poucos, e as condenações pouquíssimas, graças a medidas rigorosas introduzidas seja pelos bispos americanos, seja pela Santa Sé.
O estudo do John Jay College nos diz que quatro por cento dos sacerdotes americanos são pedófilos? De modo algum. Segundo aquela pesquisa, 78,2% das acusações se referiam a menores que haviam superado a puberdade. Manter relação sexual com uma menina de 17 anos não é certamente "una bella cosa", muito menos para um padre: mas não se trata de pedofilia. Portanto, ao longo de cinqüenta e dois anos, os sacerdotes acusados de pedofilia nos EUA são 958, dezoito por ano. As condenações foram 54, pouco mais de uma por ano.
O número de condenações penais de sacerdotes e religiosos em outros países é parecido, embora em nenhum país se disponha de um estudo completo como aquele feito pelo John Jay College. Cita-se frequentemente uma série de relatórios governamentais na Irlanda que definem como "endêmica" a presença de abusos nas escolas e nos orfanatos (masculinos) administrados por algumas dioceses e ordens religiosas, e não há dúvida de que casos muito graves de abusos sexuais de menores nesse país realmente aconteceram. O exame sistemático desses relatórios mostra, ademais, como muitas acusações se referem ao uso de meios de correção excessivos ou violentos. O assim chamado Relatório Ryan de 2009 - que usa uma linguagem muito dura em relação à Igreja Católica - reporta, no período que investiga, a partir de um universo de 25.000 alunos de escolas, reformatórios e orfanatos, 253 acusações de abusos sexuais de meninos e 128 de meninas, nem todos atribuídos a sacerdotes, religiosos ou religiosas, de diversa natureza e gravidade, raramente referidos a menores impúberes e que, ainda mais raramente, levaram a condenações.
As polêmicas dessas últimas semanas sobre a Alemanha e a Áustria exibem uma característica típica dos pânicos morais: apresentam-se como "novos" fatos que aconteceram há muitos anos ou são - em alguns casos há mais de 30 anos - já conhecidos em parte. O fato de se noticiarem na primeira página dos jornais - com uma particular insistência no que toca à área geográfica da Bavária, de onde vem o Papa - ocorrências dos anos 1980, como se houvessem ocorrido ontem; e de se suscitarem polêmicas violentas, com um ataque concêntrico que anuncia todo dia, em estilo escandaloso, novas "descobertas", mostra bem como o pânico moral é promovido por "empreendedores morais" de forma organizada e sistemática. O caso que - como alguns jornais publicaram - "envolve o Papa" é um exemplo de manual escolar: refere-se a um episódio de abusos na Arquidiocese de Munique, da qual era arcebispo o atual Pontífice, que remonta a 1980. O caso veio à tona em 1985 e foi julgado por um tribunal alemão em 198 6; no julgamento ficou provado, entre outras coisas, que a decisão de acolher na arquidiocese o sacerdote em questão não foi tomada pelo cardeal Ratzinger e não era sequer do seu conhecimento, o que não admira numa grande diocese com uma burocracia complexa. Por que um jornal alemão decide exumar esse caso e publicá-lo na primeira página vinte e quatro anos depois da sentença, isto, sim, deveria ser a verdadeira questão.
Uma pergunta desagradável (...), mas importante, é se ser um padre católico é uma condição que comporta um risco de se tornar pedófilo ou de abusar sexualmente de menores (como se viu, as duas coisas não coincidem, pois quem abusa de uma menina de dezesseis anos não é um pedófilo) mais elevado em relação ao resto da população. Responder a essa pergunta é fundamental para descobrir as causas do fenômeno e assim preveni-lo. Segundo os estudos de Jenkins, se se compara a Igreja Católica dos EUA às principais denominações protestantes se descobre que a presença de pedófilos é - dependendo das denominações - de duas a dez vezes mais alta entre os pastores protestantes do que entre padres católicos. A questão é relevante porque mostra que o problema não é o celibato: a maior parte dos pastores protestantes é casada. No mesmo período em que uma centena de sacerdotes americanos era condenada por abuso sexual de menores, o número de professores de educação física e técnicos de equipes esportivas juvenis - também esses em sua maioria casados - julgados culpados do mesmo delito pelos tribunais americanos atingia os seis mil. Os exemplos poderiam continuar, não só nos EUA. E, sobretudo, segundo os relatórios periódicos do governo americano, cerca de dois terços das doenças sexuais de menores não são transmitidas por estranhos ou professores - incluindo padres e pastores protestantes - mas por familiares: padrastos, tios, primos, irmãos e infelizmente também pais. Dados semelhantes existem em muitos outros países.
Embora seja pouco politicamente correto dizer isto, há um dado que é muito significativo: mais de oitenta por cento dos pedófilos são homossexuais, machos que abusam de outros machos. E - para citar ainda uma vez Jenkins - mais de noventa por cento dos sacerdotes católicos condenados por abuso sexual de menores e pedofilia são homossexuais. Se na Igreja Católica houve de fato um problema, este não foi o celibato, mas uma certa tolerância em relação ao homossexualismo nos seminários, particularmente nos anos 1970, quando foi ordenada a grande maioria de sacerdotes posteriormente condenados pelos abusos. É um problema que Bento XVI está corrigindo vigorosamente. O retorno à moral, à disciplina ascética, à meditação sobre a verdadeira, a grande natureza do sacerdócio são o antídoto definitivo contra as tragédias reais da pedofilia. Também para isso deve servir o Ano Sacerdotal.
Quanto a 2006 - quando a BBC colocou no ar o lixo-documentário do parlamentar irlandês e ativista homossexual Colm O’Gorman - e 2007 - quando [Michele] Santoro veiculou a versão italiana em Annozero [programa televisivo da RAI] - não há, na verdade, muito de novo, exceto a crescente severidade e vigilância da Igreja. Os casos dolorosos de que se fala nestas últimas semanas nem sempre são inventados, mas aconteceram há mais de vinte ou trinta anos.
Ou, talvez, exista algo de novo. Por que exumar em 2010 casos velhos ou muito frequentemente já conhecidos, ao ritmo de um por dia, atacando cada vez mais diretamente o Papa - um ataque, ademais, paradoxal, se se considera a grande severidade do cardeal Ratzinger, primeiro, e de Bento XVI, depois, em relação a esse tema? Os "empreendedores morais" que organizam o pânico têm uma agenda que se revela sempre mais claramente, e que nada tem a ver com a efetiva proteção das crianças. A leitura de certos artigos nos mostra como - às vésperas de decisões políticas, judiciais e também eleitorais, por toda Europa e no mundo, sobre temas como a utilização da pílula RU486, a eutanásia, o reconhecimento das uniões homossexuais, em que a voz da Igreja e do Papa se ergue, quase isolada, na defesa da vida e da família - lobbies muito poderosos tentam desqualificar preventivamente essa voz com a acusação mais infamante e, hoje, infelizmente, também mais fácil: a de favorecer ou tolerar a ped ofilia. Estes lobbies mais ou menos maçônicos manifestam o poder sinistro da tecnocracia, evocado pelo próprio Bento XVI na encíclica Caritas in Veritate e a denúncia de João Paulo II, na mensagem da Jornada Mundial da Paz de 1985 (de 8.12.1984), a propósito das “intenções ocultas" - ao lado de outras "abertamente propagandeadas" - "voltadas a subjugar todos os povos a regimes nos quais Deus não importa".
De fato, esta é uma hora de trevas, que traz à mente a profecia de um grande pensador católico do século XIX, Emiliano Avogadro della Motta (1798-1865), segundo o qual às ruínas deixadas pela ideologia laicista se seguiria uma autêntica "demonolatria" que se manifestaria particularmente no ataque à família e à verdadeira noção do matrimônio. Restabelecer a verdade sociológica sobre pânicos morais em tema de padres e pedofilia por si só não resolve os problemas e não paralisa o lobby, mas pode constituir ao menos uma pequena e devida homenagem à grandeza de um Pontífice e de uma Igreja feridos e caluniados por não se resignarem a calar sobre a vida e a família.
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Massimo Introvigne é sociólogo italiano. O texto original está no site do CESNUR - Centro Studi sulle Nuove Religioni (http://www.cesnur.org/2010/mi_preti_pedofili.html).
Traduzido por Miguel Nagib.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Ele se inclinou

As leituras do evangelho nestes dias mais próximos dos mistérios pascais vão deixando mais claras a necessidade de uma postura minha e de cada um, uma tomada de decisão diante de Deus, da postura de Deus. E a postura de Deus é de abaixamento, de ir ao encontro, é de ternura e resgate, nunca e jamais de acusação.
O inimigo de nossas almas e a deformação causada pelo pecado que há em nós e que transbordou e se encarnou nas realidades humanas e sociais ao nosso redor, fazem com que duvidemos deste amor. Duvidamos de Deus. Duvidamos porque não o conhecemos e buscamos como Ele se revela, mas a partir das experiências de desamor que vivemos. Assim se estabelece a distância, o medo.
Em momentos de rebeldia e busca do meu lugar no mundo quantas vezes também eu achei o Senhor exigente demais como se Ele quisesse cercear minha liberdade, transferindo para Ele, no entanto, com essa atitude, simplesmente a minha experiência humana limitada de filiação? Meu querido pai, tão amoroso e intenso era um homem com neuroses de guerra que o deixaram muito exigente e punitivo, deixando em mim marcas. Explificações psicológicas talvez, unidas a minha própria rebeldia e pecado explicam este medo de Deus que tive, por pura transferência...
Mas a permanência nos caminhos do Senhor, a busca de seu amor em meio à vida com todas as suas implicações de perdas e ganhos, de verdades e mentiras, de angústias e realizações fez toda a diferença. Eu posso dizer que O encontrei, porque fui encontrada. Sou testemunha de que Ele se inclina silenciosamente e vem ao encontro.
Tem tanta delicadeza o Deus todo-poderoso que é quase como se Ele não respirasse para não nos assustar com tanto amor, assim como fazemos quando pegamos uma florzinha mínima nas mãos para contemplar seu contorno e cor. Assim é Jesus. Agachado, escreve no chão como se não quisesse que aquela mulher humilhada publicamente se sentisse mais humilhada. É o texto de João 8. E Ele a ama e olha, afirma e perdoa. Ele lhe dá sentido e futuro. Vá e não peques mais. Eu te amo. Tu és livre. E a florzinha revive feliz.