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segunda-feira, 25 de abril de 2011

O Senhor está vivo, Ele ressuscitou!

Em Jesus temos toda esperança! Ele é a minha esperança! Passei desde ontem com o coração ligado em todos os que estão em grande sofrimento nestes dias ao redor do mundo e num misto de alegria e tristeza, de enorme gratidão e renovação de oferta irrestrita da minha vida e sofrimento pelo sofrimento da Humanidade, passei esta Páscoa. Só sei que tudo me aponta Jesus, o Cordeiro imolado, seja a dor seja o amor. Talvez a simplicidade das palavras do Santo Padre Bento XVI sejam as mais humildes e verdadeiras, as quais partilho assumindo-as para mim: 

"No nosso coração, há alegria e sofrimento; na nossa face, sorrisos e lágrimas. A nossa realidade terrena é assim. Mas Cristo ressuscitou, está vivo e caminha conosco. Por isso, cantamos e caminhamos, fiéis ao nosso compromisso neste mundo, com o olhar voltado para o Céu. Boa Páscoa a todos!”

Partilho aqui as palavras da homilia do Pe.David Neuhaus, sj, proferidas hoje na celebração pascal com todas as comunidades de católicos de língua hebraica que anualmente nesta data, em Jerusalém. Quem não souber inglês, que use o google translator e viva este tempo pascal saboreando as quatro palavras que ele escolheu como aquelas que traduziriam o tríduo pascal e o domingo de Páscoa, e que me pareceram sábias e bem apropriadas: quinta-feira santa AMOR, sexta-feira santa, REPARAÇÃO, sábado santo, SILÊNCIO e domingo de páscoa, ALEGRIA.

Four words for the Easter season

Sunday, 24 April 2011 06:13

Father David proposes a reflection on four central words connected to the celebration of the central mysteries of the life of Christ, celebrated in the Church during the Triduum and on Easter Sunday.
 
Holy Thursday: love
 
The central experience on this day is to participate in the Eucharist and experience Jesus’ love as he gives us his body and blood. During the last supper that Jesus shares with his disciples, he gives them bread and wine to eat to nourish them with his very life, his body and his blood. The act of feeding is one of the most intimate acts of love as can be seen when a mother nurses her child. Israel experienced this in the Wilderness with the gift of manna, God coming to nourish His own in a place of nothingness. Jesus comes in the last supper to feed the disciples with his own life, a life poured out for them. This gift of love is for them despite the fact that they are weak, confused and afraid. One of them will betray him, one of them will deny him and all will abandon him, and despite his knowledge of their fragile humanity, he pours out his life for them on the eve of the violent taking of his life by others.
 
This gift of love, the gift of his life, is complemented with his stooping down to wash their feet. They are clean as they sit down to eat but their feet must be constantly washed by him as they tread on in their world of darkness and fragility. In his stooping down, Jesus reaches deep into the reality of his all too human disciples and seeks to lift them up with him into the Kingdom of his Father.
 
In Gethsemane, that same night, Jesus gives perfect expression to his willingness to do his Father’s will, to lead his Father’s children back home.
 
Good Friday: atonement
 
The central experience of this day is to contemplate the Crucified one. The people of Israel were commanded to celebrate a day of Atonement once a year, when the high priest made sacrifices to expiate his own sins, the sins of the priests and those of the people and thus renew the covenant with God.
 
Jesus’ life is taken from him with cruel violence and yet it is a life he has already given of his own free will, a life given for all. He is put to death because of sinners but he freely sacrifices himself to reconcile us with God. His obedience unto death, a brutal death on a cross like a common criminal, brings us back into the embrace of the Father from whom we have been separated by sin.

Gazing on the Crucified one, I am called to realize that he is hanging there through no fault of his own. I must awaken to the stark reality that is for my sins that he hangs there. It should be I hanging there in his place. As I gaze on him, I mourn not only for him but for myself and for all humanity, submerged in darkness, sin, fear and death. We have chosen death over life.
 
We have put him to death. It is this fundamental awakening to who I am, to who Jesus is, to who God is, who so loved me that He sent His only son, that brings me back to the embrace of the Father. Jesus’ saving act is his awakening me from my slumber. I together with all sinners who believe in him are born anew in the blood and water that gush from his wounded side. This is the at-one-ment with God that Jesus realizes in his death on the cross.

Holy Saturday: quiet

The central experience of this day is quiet, the quiet that comes from the end of activity, the quiet that anticipates new beginnings. As Sabbath approaches, Jesus is laid in a tomb. Silence descends with the Sabbath and yet this is a Sabbath under the shadow of death. Is this the end of the story? Has death swallowed up once again the hope that good will triumph? Holy Saturday is spent in prayer and silence, reflecting on the story until now. This is the day in which the Church experiences a real “Shabbat”, the quiet and calm which are foundations of the spiritual life.
 
On this day, we must reflect on the image in which we were created – God’s own image. This image destines us to be children of God the Father. We must reflect on how He led us out of slavery into freedom, out of darkness into light, out of nothingness into life. On this day we can reflect on how the “image of God” is what unites us with all His children, called to be one people in a Kingdom of peace, His kingdom. This God of Creation, this God of Salvation… surely He will be victorious over death and raise His son from the tomb… Surely this will be a Saturday of light…
 
Easter Sunday: joy

The central experience is the discovery of the empty tomb and the experience of amazement that transforms into joy. There is an “after”… ! Despite the human logic that leads to a dead end – an end in darkness, sin, fear and death, God’s fidelity assures that there is an “after”. God does not accept the end that our human weakness imposes on the story of our lives. God opens up the story again in order to accomplish the promises that he has made.
 
Death has been vanquished through Jesus’ obedience unto death. Sin has failed and fear is no more. Jesus is risen, the sure sign of God’s fidelity and ultimate victory!
 
The joy that characterizes Easter Sunday is the joy of new beginnings. This is the eighth day, the first day of a new creation in which slavery, sin, fear and death have no place. With Christ’s rising from the dead, his disciples stand at the portal of the new reality of the Kingdom.

The next seven weeks of the Easter season will be a time to prepare to receive the Spirit that Jesus will bestow on his Church at Pentecost.

Que não falte AMOR = a própria presença do Espírito Santo, Ele que ressuscitou Jesus dos mortos, no nosso coração!

Hamashiah Kam! Be emet Kam Halleluya!

(Em hebraico = o Senhor ressuscitou! verdadeiramente ressuscitou Aleluia!)

domingo, 11 de abril de 2010

Shalom a todos vós! A Páscoa!

Primeiramente algumas fotos
Domingo da Ressurreição com Cristina e Viviane e todos os membros da Pastoral Hebraica, judeus católicos espalhados em quatro núcleos por toda Israel que se encontram na Páscoa, este ano em Kyriat Yearim, uma cidadezinha perto de Jerusalém. Nesta cidade a Arca da Aliança ficou por algumas dezenas de anos, 1.000 anos antes de Cristo, até ser levada jubilosamente pelo Rei Davi para Jerusalém... mas esta história eu conto outro dia.

Igreja de Nossa Senhora, Arca da Nova Aliança, das Irmãs de S.José da Aparição, uma congregação que eu só vim conhecer aqui.


Esta foto ficou muito fofa: as mocinhas foram batizadas em 2009 e são irmãs. A do lado da Viviane chama-se Daniel (é estranho mas é sem a mesmo), e tem 15 anos, a de vermelho chama-se Elenora, de 13, e a caçula Haddass, de 11, me faz lembrar a Haddass do filme Yentl.


Eu com um dos meus ídolos, diz o povo lá de casa: padre ou Fr. David Neuhaus, jesuíta. Já falei várias vezes dele aqui no blog. É aquele de família alemã judia, fugida na guerra para a África do Sul, que mandou o filho para uma escola rabínica em Jerusalém e o viu convertido ao cristianismo e ao catolicismo na juventude. Ele recebeu o batismo com 26 anos e foi ordenado sacerdote aos 39 anos neste exato local, há dez anos, com o lema da Palavra de Deus tirado do profeta Isaías: "Eis-me aqui, envia-me Senhor!". Nada me tira da cabeça que um dia ele vai ser bispo importante na Igreja. Instrumento de reconciliação e de diálogo, além de caráter de liderança muito evidentes agregados a uma cultura invejável, ele já tem. Que o Senhor o abençoe!




Shalom! É assim que Jesus cumprimenta e surpreende os apóstolos aparecendo pela terceira vez na oitava da Páscoa, dando-lhes o dom do Espírito, como que antecipando Pentecostes, Espírito que é a plenitude de Si mesmo, ou o seu Shalom! Este texto de João 20, 19 e seguintes é o fundamento cristólógico da vocação Shalom e é o fundamento existencial de quem foi chamado por Deus a viver seu batismo nesta vocação específica. É um mistério de amor tão grande e tão maior do que eu compreendo! No entanto sei que participo e contribuo para que ele se expanda, se desenvolva e se firme neste mundo tão assustadoramente mergulhado nas trevas e desejoso de mergulhar nas trevas, o que torna a situação ainda mais dolorosa.
Tenho me tornado cada vez mais uma pessoa de esperança porque tenho aprendido a beber da fonte verdadeira que é Deus mesmo, Ele que é eterno e bom e ama com entranhas de misericórdia cada pessoa e realidade humana. É só olhar para Jesus Cristo e entender, pedir para ter olhos que vejam, coração que ame, inteligência que acolha, vida que experimente. Assim como fez Tomé. Como este apóstolo é importante para nós da Comunidade Shalom! Por que nele nós nos reconhecemos na necessidade de tocar e experimentar e ver e sentir a presença pessoal de Jesus, o toque do seu Amor e da realidade sobrenatural de Deus.
Engraçado que muitas e muitas vezes criticamos a atitude de Tomé mas Jesus vai até ele com ternura, paciência e amizade profundas e o deixa fazer a experiência pessoal da Ressurreição. Jesus o leva a crescer na fé e na visão sobrenatural da vida, e Tomé entende com a cabeça, a alma, os sentimentos, que todas as palavras do Senhor se cumpriram como também todas as do Antigo Testamento. Jesus é o Messias, o Salvador, a fonte perfeita e o próprio Shalom do Altíssimo, revelado em Jesus como Pai.
E quem fez e refez e refaz esta experiência batismal a cada Páscoa não tem outro desejo do que continuar testemunhando e dando a vida para a evangelização, seja formalmente, como é o meu caso, seja vivendo simplesmente (simplesmente?) como ressuscitados, como acontece com milhares e milhares de jovens e adultos, homens e mulheres espalhados pela face da terra, que amam, sofrem, trabalham, lutam, vivem como todas as demais pessoas, sem ser iguais a elas por causa do Ressuscitado que nelas, vivo está.

Minha Páscoa e oitava da Páscoa foram ricas e muito ocupadas. Os funcionários do asilo que são cristãos estavam de folga, e foram os de casa que tiveram que cobrir todos os horários sem contar as subidas e descidas para Haifa, para algumas cerimônias, de ônibus e de taxi, o que representou muito tempo de viagem. É que depois do acidente ficamos sem o carro que pertencia ao asilo e ficava sob a responsabilidade da Comunidade, e transporte agora ou é de ônibus, eventualmente de carona e aos sábados, por conta do Shabat, de taxi, porque não há transporte público.
Eu mesma não fui para o asilo, mas nos alternamos como missão nas celebrações pela manhã na paróquia do profeta Elias em árabe, no rito católico melquita, e à tarde na pastoral hebraica com as celebrações no rito latino em hebraico. Tudo uma grande beleza, se bem que no meu pobre entendimento e sensibilidade, falta um pouco da graça e da unção da piedade, do gozo espiritual de se celebrar vivendo e não simplesmente lembrando... É fazer memória viva. É atualizar a memória para que ela se perpetue e não somente fazer lembrança. É verdadeiramente ser tocado e tocar o coração transpassado do mais Belo dos Filhos dos Homens e ser transportado e inundado de amor, pois Ele está vivo e é real!
Seja como for porém, e para sempre, com toda a corte celeste de anjos e santos, dizemos e cantamos:
El Messih Kam! Rrá Kan Kam!
O Senhor Ressuscitou! Aleluia!
Sim, verdadeiramente ressuscitou! Aleluia!

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Pequenas conversas

Foi no dia 25 de março que isso aconteceu. Eu estava em Nazaré celebrando a grande festa da Encarnação de Jesus no ventre da Virgem Maria e também meu segundo aniversário de consagração. A basílica superior estava se enchendo de peregrinos do mundo inteiro e de fiéis e religiosos que vivem espalhados na Terra Santa. Eu cheguei um pouco mais cedo para pegar lugar na ponta do banco, nem tanto atrás nem tanto na frente onde ficam o coral e geralmente as pessoas mais velhas - eu estou quase entrando pra essa turma. Quando começou o canto de entrada apareceu a Ir.Paul (é isso mesmo Paul e não Paula), que é de Isifya da congregação das Carmelitas de S.José onde nós assistimos missa de segunda a sexta, completamente perdida procurando um lugar. Naturalmente dei o meu, e fui me dirigindo para o fundo da igreja quando um casal de irlandeses, descobri no fim da missa, me chamou para ficar do lado deles esprimidinha entre eles e uma senhora. E a celebração corria solta alternando orações em árabe e cantos em latim e a senhora do meu lado com fisionomia de gringa, nos seus 60 anos, acompanhava tudo com jeito de quem sabia ler música com facilidade. De repente, quando começou a oração eucarística, ela se virou para mim, perguntou se eu falava inglês, e me fez uma pergunta inusitada: 'eu já posso ir embora ou ainda tem alguma coisa importante para acontecer?'. Por causa da minha fisionomia surpresa ela emendou: '...eu não sou católica'. Pensei comigo mesma: 'deve ser protestante'. Respondi então, rapidamente, que ela esperasse a consagração e a hora da comunhão, o ápice da celebração, para poder se retirar, e comecei a instrui-la. Na hora da consagração eu me ajoelhei e fiz sinal para ela fazer o mesmo e a resposta que recebi me surpreendeu mais uma vez: 'sou judia, e judeus não se ajoelham...' e permaneceu sentada. Continuo me perguntando até agora o que isso significa. Quando me ergui a senhora explicou-me em breves palavras, que nunca tinha entrado numa igreja na vida, que morava em Jerusalém e que estava ali acompanhando um casal francês, amigos católicos, que peregrinavam na Terra Santa. Eu achei interessantíssimo conhecer uma pessoa que nunca tivesse entrado numa igreja na vida! Mas o mais lindo foi o que se seguiu: eu perguntei se ela sabia o Pai-Nosso e ela disse que já tinha ouvido falar. Então juntas, uma cristã e uma judia, de livrinho em mãos cantamos em árabe na casa de Nazaré, a oração perfeita que o Senhor nos ensinou, pedindo que o Seu Reino viesse. Fiquei profundamente emocionada com um gosto suave na alma, fruto da oração escondida mas não menos efetiva pela unidade e pela paz na Terra Santa. Era já uma antecipação da Páscoa do Senhor!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Ele está vivo!

Que mais precisa ser dito além disso, que Jesus está vivo?! Que maior descoberta pode existir senão conhecê-lo pessoalmente? Mais que idéias, palavras, textos, argumentos, conceitos, sínteses e especulações, o segredo da vida plena está nele, Jesus, o Cordeiro, o Amado, o Vivente, o Senhor, que prova de uma vez por todas que é Deus quem vem ao homem e que o ama perdida e eternamente. Nada pode nos separar de Deus e nunca mais estaremos sozinhos!

Se as guerras comem soltas na Turquia ou na Rússia e a violência procura espaço na vizinha Jerusalém e em tantas cidades é porque há poucos corações como o de Madalena que querem encontrar o seu Senhor e continuam crendo que sem a força do Ressuscitado as trevas podem deixar de ser trevas...quanta ilusão!

El Messih Kam! Rrá Kan Kam! Este é o meu grito e a minha mais profunda alegria e gratidão: o Senhor ressuscitou! Aleluia! Sim verdadeiramente ressucitou! Aleluia!

quinta-feira, 25 de março de 2010

19, 25 e já estamos em Abril

Hoje é aniversário de morte do Papa João Paulo II que coincide com a Sexta-feira Santa, ou Good-Friday em inglês. É bom que se chama Good porque realmente nela o ápide do amor de Deus em Jesus se revelou e consumou a restauração da nossa filiação divina. Tudo está consumado e nada pode reverter ou desfazer esta união de amor entre Deus e a Humanidade. E quando a gente celebra estas festas e faz memória bíblica afetiva, pessoal e comunitária pensando em todas as pessoas de todos os tempos, a alma se enche de tal gratidão que se entende porque ela é eterna para caber este amor sem tamanho...
Está é minha segunda quaresma e Páscoa em terras de Israel e a consciência é outra. O país está em celebração pois esta semana também é a Páscoa dos judeus celebrando a libertação do Egito e, no país, por uma semana não se encontra pão para comprar pois não há mais maná, (só se for de padaria não judia...) e as sinagogas estão em festa. Mas eles não receberam a Luz e o Salvador que de sua raça, o Filho de Davi, se revelou aos homens cumprindo todas as profecias da Lei e dos Profetas.
A quaresma foi iluminada para mim com as festas de S.José e da Anunciação, ambas solenemente festejadas em Nazaré. Somente estive lá no dia 25 pois esta data é meu aniversário de consagração, felizmente, o que me da enorme alegria pela providencial coincidência. O desejo sincero é continuar ofertando minha vida como grão de trigo, que morrendo e vivendo no Pão da Vida, produza algum fruto.
Esta semana e tempo também foram sombreados pelas calúnias e massiva campanha anti-Igreja Católica, anti-Papa Bento XVI, anti-Cristianismo que chega a chocar. Há muitas pessoas arregaçando as mangas e escrevendo em defesa do Santo Padre contra este laicismo falso que tem tom e ação ideológica mais radical que qualquer terrorismo que se teme do Oriente Médio.
Segue abaixo esta análise excelente escrita por um sociólogo italiano que nem católico é, mas que tem justos critérios de análise, conteúdo intelectual, boa fé, boa vontade, ética e um mínimo de sabedoria que é o dom de alcançar a essência das realidades. Boa leitura! Vale a pena, e que o venerável e muito amado Papa João Paulo II interceda por nós nesta Páscoa. Amém!


Padres pedófilos: um pânico moral
Por Massimo Introvigne

Por que se volta a falar de padres pedófilos, com acusações que se referem à Alemanha, a pessoas próximas ao Papa e agora até mesmo ao próprio Papa? Será que a sociologia tem algo a dizer a respeito ou deve deixar o caminho livre para os jornalistas? Creio que a sociologia tem muito a dizer, e que não deve ficar quieta por medo de desagradar este ou aquele. A discussão atual sobre padres pedófilos - considerada do ponto de vista sociológico - representa um exemplo típico de "pânico moral". O conceito nasceu nos anos 1970 para explicar como alguns problemas são objeto de uma "hiperconstrução social". Mais precisamente, os pânicos morais foram definidos como problemas socialmente construídos, caracterizados por uma amplificação sistemática dos dados reais, seja na exposição midiática, seja na discussão política. Duas outras características foram mencionadas como típicas dos pânicos morais.
Em primeiro lugar, problemas sociais que existem há décadas são reconstruídos na narrativ a midiática e política como "novos", ou como objeto de um suposto e dramático crescimento recente. Em segundo lugar, a sua incidência é exagerada por estatísticas folclóricas que, mesmo não confirmadas por estudos acadêmicos, são repetidas pelos meios de comunicação e podem suscitar campanhas midiáticas persistentes. Philip Jenkins assinalou o papel dos "empreendedores morais" - cujas agendas nem sempre são declaradas - na criação e gestão dos pânicos. Os pânicos morais não fazem bem a ninguém. Eles distorcem a percepção dos problemas e comprometem a eficácia das medidas que deveriam resolvê-los. Uma análise errada não pode produzir senão uma intervenção errada.
Que fique claro: os pânicos morais têm na sua origem circunstâncias objetivas e perigos reais. Não inventam a existência de um problema, mas exageram suas dimensões estatísticas. Numa série de valiosos estudos, o mesmo Jenkins mostrou como a questão dos padres pedófilos talvez seja o exemplo mais típico de um pânico moral. Estão presentes de fato os dois elementos característicos: um dado real na origem, e uma exageração desse dado por obra de ambíguos "empreendedores morais".
Primeiro, o dado real na origem: existem padres pedófilos. Alguns casos são ao mesmo tempo desconcertantes e repugnantes, foram objeto de condenações definitivas e os próprios acusados nunca se disseram inocentes. Estes casos - nos EUA, na Irlanda, na Austrália - explicam as severas palavras do Papa e o seu pedido de perdão às vítimas. Mesmo se os casos fossem apenas dois - e, infelizmente, são muitos - isto já seria demais. Mas já que pedir perdão - apesar de nobre e oportuno - não basta, sendo necessário evitar que os casos se repitam, não é indiferente saber se os casos são dois, duzentos ou vinte mil. E tampouco é irrelevante saber se o número de casos entre sacerdotes e religiosos católicos é mais ou menos numeroso do que entre outras categorias de pessoas. Os sociólogos frequentemente são acusados de trabalhar sobre números frios, esquecendo que por trás de cada número há um caso humano. Mas os números, embora não sejam suficientes, são necessários. São o pressuposto de toda análise adequada.
Para entender como de um dado tragicamente real se passou a um pânico moral é necessário saber quantos são os padres pedófilos. Os dados mais amplos foram coletados nos EUA, onde, em 2004, a Conferência Episcopal encomendou um estudo independente ao John Jay College of Criminal Justice da City University of New York, que não é uma universidade católica e é unanimemente reconhecida como a mais autorizada instituição acadêmica dos EUA em matéria de criminologia. Esse estudo nos diz que de 1950 a 2002, num universo de 109.000, 4.392 sacerdotes americanos foram acusados de ter relações sexuais com menores. Desses, pouco mais de uma centena foram condenados por tribunais civis. O baixo número de condenações por parte do Estado deriva de diversos fatores. Em alguns casos as verdadeiras ou supostas vítimas denunciaram sacerdotes já mortos, ou foram consumados os prazos de prescrição. Em outros, à acusação e à condenação canônicas não corresponde nenhuma violação a qualquer lei civil : é o caso, por exemplo, em diversos Estados americanos, do sacerdote que tinha uma relação consensual com uma - ou mesmo um - menor com mais de 16 anos. Mas também aconteceram muitos casos clamorosos de sacerdotes inocentes acusados. Esses casos foram multiplicados nos anos 1990, quando alguns escritórios de advocacia perceberam que poderiam obter transações milionárias com base em meras suspeitas. Os apelos à "tolerância zero" são justificados, mas também não deveria haver qualquer tolerância com quem calunia sacerdotes inocentes. Acrescento que em relação aos EUA as cifras não se alterariam de forma significativa se somássemos o período 2002-2010, pois o estudo feito pelo John Jay College já observava o "declínio claríssimo" dos casos no ano 2000. Os novos inquéritos são poucos, e as condenações pouquíssimas, graças a medidas rigorosas introduzidas seja pelos bispos americanos, seja pela Santa Sé.
O estudo do John Jay College nos diz que quatro por cento dos sacerdotes americanos são pedófilos? De modo algum. Segundo aquela pesquisa, 78,2% das acusações se referiam a menores que haviam superado a puberdade. Manter relação sexual com uma menina de 17 anos não é certamente "una bella cosa", muito menos para um padre: mas não se trata de pedofilia. Portanto, ao longo de cinqüenta e dois anos, os sacerdotes acusados de pedofilia nos EUA são 958, dezoito por ano. As condenações foram 54, pouco mais de uma por ano.
O número de condenações penais de sacerdotes e religiosos em outros países é parecido, embora em nenhum país se disponha de um estudo completo como aquele feito pelo John Jay College. Cita-se frequentemente uma série de relatórios governamentais na Irlanda que definem como "endêmica" a presença de abusos nas escolas e nos orfanatos (masculinos) administrados por algumas dioceses e ordens religiosas, e não há dúvida de que casos muito graves de abusos sexuais de menores nesse país realmente aconteceram. O exame sistemático desses relatórios mostra, ademais, como muitas acusações se referem ao uso de meios de correção excessivos ou violentos. O assim chamado Relatório Ryan de 2009 - que usa uma linguagem muito dura em relação à Igreja Católica - reporta, no período que investiga, a partir de um universo de 25.000 alunos de escolas, reformatórios e orfanatos, 253 acusações de abusos sexuais de meninos e 128 de meninas, nem todos atribuídos a sacerdotes, religiosos ou religiosas, de diversa natureza e gravidade, raramente referidos a menores impúberes e que, ainda mais raramente, levaram a condenações.
As polêmicas dessas últimas semanas sobre a Alemanha e a Áustria exibem uma característica típica dos pânicos morais: apresentam-se como "novos" fatos que aconteceram há muitos anos ou são - em alguns casos há mais de 30 anos - já conhecidos em parte. O fato de se noticiarem na primeira página dos jornais - com uma particular insistência no que toca à área geográfica da Bavária, de onde vem o Papa - ocorrências dos anos 1980, como se houvessem ocorrido ontem; e de se suscitarem polêmicas violentas, com um ataque concêntrico que anuncia todo dia, em estilo escandaloso, novas "descobertas", mostra bem como o pânico moral é promovido por "empreendedores morais" de forma organizada e sistemática. O caso que - como alguns jornais publicaram - "envolve o Papa" é um exemplo de manual escolar: refere-se a um episódio de abusos na Arquidiocese de Munique, da qual era arcebispo o atual Pontífice, que remonta a 1980. O caso veio à tona em 1985 e foi julgado por um tribunal alemão em 198 6; no julgamento ficou provado, entre outras coisas, que a decisão de acolher na arquidiocese o sacerdote em questão não foi tomada pelo cardeal Ratzinger e não era sequer do seu conhecimento, o que não admira numa grande diocese com uma burocracia complexa. Por que um jornal alemão decide exumar esse caso e publicá-lo na primeira página vinte e quatro anos depois da sentença, isto, sim, deveria ser a verdadeira questão.
Uma pergunta desagradável (...), mas importante, é se ser um padre católico é uma condição que comporta um risco de se tornar pedófilo ou de abusar sexualmente de menores (como se viu, as duas coisas não coincidem, pois quem abusa de uma menina de dezesseis anos não é um pedófilo) mais elevado em relação ao resto da população. Responder a essa pergunta é fundamental para descobrir as causas do fenômeno e assim preveni-lo. Segundo os estudos de Jenkins, se se compara a Igreja Católica dos EUA às principais denominações protestantes se descobre que a presença de pedófilos é - dependendo das denominações - de duas a dez vezes mais alta entre os pastores protestantes do que entre padres católicos. A questão é relevante porque mostra que o problema não é o celibato: a maior parte dos pastores protestantes é casada. No mesmo período em que uma centena de sacerdotes americanos era condenada por abuso sexual de menores, o número de professores de educação física e técnicos de equipes esportivas juvenis - também esses em sua maioria casados - julgados culpados do mesmo delito pelos tribunais americanos atingia os seis mil. Os exemplos poderiam continuar, não só nos EUA. E, sobretudo, segundo os relatórios periódicos do governo americano, cerca de dois terços das doenças sexuais de menores não são transmitidas por estranhos ou professores - incluindo padres e pastores protestantes - mas por familiares: padrastos, tios, primos, irmãos e infelizmente também pais. Dados semelhantes existem em muitos outros países.
Embora seja pouco politicamente correto dizer isto, há um dado que é muito significativo: mais de oitenta por cento dos pedófilos são homossexuais, machos que abusam de outros machos. E - para citar ainda uma vez Jenkins - mais de noventa por cento dos sacerdotes católicos condenados por abuso sexual de menores e pedofilia são homossexuais. Se na Igreja Católica houve de fato um problema, este não foi o celibato, mas uma certa tolerância em relação ao homossexualismo nos seminários, particularmente nos anos 1970, quando foi ordenada a grande maioria de sacerdotes posteriormente condenados pelos abusos. É um problema que Bento XVI está corrigindo vigorosamente. O retorno à moral, à disciplina ascética, à meditação sobre a verdadeira, a grande natureza do sacerdócio são o antídoto definitivo contra as tragédias reais da pedofilia. Também para isso deve servir o Ano Sacerdotal.
Quanto a 2006 - quando a BBC colocou no ar o lixo-documentário do parlamentar irlandês e ativista homossexual Colm O’Gorman - e 2007 - quando [Michele] Santoro veiculou a versão italiana em Annozero [programa televisivo da RAI] - não há, na verdade, muito de novo, exceto a crescente severidade e vigilância da Igreja. Os casos dolorosos de que se fala nestas últimas semanas nem sempre são inventados, mas aconteceram há mais de vinte ou trinta anos.
Ou, talvez, exista algo de novo. Por que exumar em 2010 casos velhos ou muito frequentemente já conhecidos, ao ritmo de um por dia, atacando cada vez mais diretamente o Papa - um ataque, ademais, paradoxal, se se considera a grande severidade do cardeal Ratzinger, primeiro, e de Bento XVI, depois, em relação a esse tema? Os "empreendedores morais" que organizam o pânico têm uma agenda que se revela sempre mais claramente, e que nada tem a ver com a efetiva proteção das crianças. A leitura de certos artigos nos mostra como - às vésperas de decisões políticas, judiciais e também eleitorais, por toda Europa e no mundo, sobre temas como a utilização da pílula RU486, a eutanásia, o reconhecimento das uniões homossexuais, em que a voz da Igreja e do Papa se ergue, quase isolada, na defesa da vida e da família - lobbies muito poderosos tentam desqualificar preventivamente essa voz com a acusação mais infamante e, hoje, infelizmente, também mais fácil: a de favorecer ou tolerar a ped ofilia. Estes lobbies mais ou menos maçônicos manifestam o poder sinistro da tecnocracia, evocado pelo próprio Bento XVI na encíclica Caritas in Veritate e a denúncia de João Paulo II, na mensagem da Jornada Mundial da Paz de 1985 (de 8.12.1984), a propósito das “intenções ocultas" - ao lado de outras "abertamente propagandeadas" - "voltadas a subjugar todos os povos a regimes nos quais Deus não importa".
De fato, esta é uma hora de trevas, que traz à mente a profecia de um grande pensador católico do século XIX, Emiliano Avogadro della Motta (1798-1865), segundo o qual às ruínas deixadas pela ideologia laicista se seguiria uma autêntica "demonolatria" que se manifestaria particularmente no ataque à família e à verdadeira noção do matrimônio. Restabelecer a verdade sociológica sobre pânicos morais em tema de padres e pedofilia por si só não resolve os problemas e não paralisa o lobby, mas pode constituir ao menos uma pequena e devida homenagem à grandeza de um Pontífice e de uma Igreja feridos e caluniados por não se resignarem a calar sobre a vida e a família.
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Massimo Introvigne é sociólogo italiano. O texto original está no site do CESNUR - Centro Studi sulle Nuove Religioni (http://www.cesnur.org/2010/mi_preti_pedofili.html).
Traduzido por Miguel Nagib.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Ele se inclinou

As leituras do evangelho nestes dias mais próximos dos mistérios pascais vão deixando mais claras a necessidade de uma postura minha e de cada um, uma tomada de decisão diante de Deus, da postura de Deus. E a postura de Deus é de abaixamento, de ir ao encontro, é de ternura e resgate, nunca e jamais de acusação.
O inimigo de nossas almas e a deformação causada pelo pecado que há em nós e que transbordou e se encarnou nas realidades humanas e sociais ao nosso redor, fazem com que duvidemos deste amor. Duvidamos de Deus. Duvidamos porque não o conhecemos e buscamos como Ele se revela, mas a partir das experiências de desamor que vivemos. Assim se estabelece a distância, o medo.
Em momentos de rebeldia e busca do meu lugar no mundo quantas vezes também eu achei o Senhor exigente demais como se Ele quisesse cercear minha liberdade, transferindo para Ele, no entanto, com essa atitude, simplesmente a minha experiência humana limitada de filiação? Meu querido pai, tão amoroso e intenso era um homem com neuroses de guerra que o deixaram muito exigente e punitivo, deixando em mim marcas. Explificações psicológicas talvez, unidas a minha própria rebeldia e pecado explicam este medo de Deus que tive, por pura transferência...
Mas a permanência nos caminhos do Senhor, a busca de seu amor em meio à vida com todas as suas implicações de perdas e ganhos, de verdades e mentiras, de angústias e realizações fez toda a diferença. Eu posso dizer que O encontrei, porque fui encontrada. Sou testemunha de que Ele se inclina silenciosamente e vem ao encontro.
Tem tanta delicadeza o Deus todo-poderoso que é quase como se Ele não respirasse para não nos assustar com tanto amor, assim como fazemos quando pegamos uma florzinha mínima nas mãos para contemplar seu contorno e cor. Assim é Jesus. Agachado, escreve no chão como se não quisesse que aquela mulher humilhada publicamente se sentisse mais humilhada. É o texto de João 8. E Ele a ama e olha, afirma e perdoa. Ele lhe dá sentido e futuro. Vá e não peques mais. Eu te amo. Tu és livre. E a florzinha revive feliz.

domingo, 14 de março de 2010

A Vez da Alegria

A festa do Pai que cobre de beijos o filho que volta, como descrita no Evangelho de S.Lucas, é sempre uma leitura mais que comovente, é desconcertante. É Deus que me espera sempre e me quer perto de si. Neste Domingo da Alegria de 2010, fica forte em meu coração o entendimento de que os dois filhos desperdiçaram as próprias riquezas, não só o caçula. Os dois não conheciam o Pai. Um por avareza e fechamento, mantendo um coração pesado porque de pedra, incapaz de reconhecer o Rosto e a Intimidade do Pai, sempre ao lado. E o outro por desperdiçar a própria humanidade, o modo como o Papa João Paulo II definiu certa vez o pecado, ou seja, aquilo que afasta da Presença pessoal e amorosa de Deus e me cega para ela.
Estou perturbada porque é deste amor que tenho sede profunda. É nesta Presença que quero viver. É desta Presença que me espera primeiro, que me ama primeiro, que tudo já me deu, que quero falar. Ah! Se eu pudesse diria a cada pessoa que conheço: 'é tempo de cair em si mesmo e voltar para casa! Volta! Volta! Vamos juntos! Eu te ajudo! Um banquete te espera e ele tem gosto de amor gratuito, de perdão sem fim, de alívio da culpa e libertação do medo da morte. Vem, eu te ajudo! Vamos juntos!'.
E para quem pensa ou ficou inquirindo a si mesmo ou aos céus onde estava Deus nas catástrofes e terremotos que este ano assolaram o mundo, respondo com uma pergunta: 'você acredita mesmo que você se preocupa mais ou ama mais qualquer uma das vítimas, mortos ou sobreviventes, do Haiti ou do Chile que o Senhor que lhes deu a vida?'. Esta é nossa maior tentação: pensarmos que sabemos mais, amamos mais, vemos melhor, somos donos do que nos foi dado...o dom da vida e também o dom da morte. O axioma da existência para quem conhece Jesus e toda a Verdade que Ele revela passa a ser eternidade-amor de onde vim, vida neste mundo no Amor e eternidade-amor para onde volto, e não mais nada de onde vim, vida como destino e fatalidade, sofrimento e morte. Não. Também não dá para ser simplista nem Alice no país das Maravilhas, mas dá desejar ser sábio, manso, humilde de coração apostando tudo e aprendendo tudo com Jesus. Penso que esta experiência forte de morte que vivi por causa do acidente tem me levado a reverter e iluminar interiormente o que representa a morte para mim e como a vivo, honestamente.
Voltando ao texto de Lucas, na pessoa do Pai fica a certeza: seu abraço, seus beijos e conversa é sempre pessoal. Ele não nos trata à rodo, aos montes, em bandos. Ele chama pelo nome, espera na estrada, tem saudade de cada um. A dor e o sofrimento humano só podem ser satisfatoriamente abraçados pela chave de leitura que vem do Pai, em Jesus homem-Deus, crucificado e impotente de Amor. Mas para ler este texto só se o Espírito Santo o apresentar, se não é letra morta, é paradoxo inesplicável, é revolta em cima de revolta, é solidão existencial, ou simplesmente é indiferença.
Quisera eu que muitos nestes dias que antecedem a Páscoa pudessem também dizer: 'quero ver! vem Espírito Santo! quero voltar! vem Espírito Santo! quero conhecer este amor! vem Espírito Santo! quero ser beijado e abraçado! quero, quero, quero!'.

domingo, 12 de abril de 2009

Sábado da Luz e Domingo do Amor Vitorioso



المسيح قم حقـًا قم!

El-massih qam,
haqan qam!

CRISTO RESSUSCITOU!
VERDADEIRAMENTE RESSUSCITOU!

É com essas palavras que todos se cumprimentam neste tempo pascal a partir de Domingo. Jesus está vivo! Ele é real e levou até as últimas consequências seu amor absoluto por nós e pelo Pai. Ele deu a vida, deu tudo de si para que novamente pudéssemos ser filhos e filhas de Deus, pudéssemos ter a dignidade, a beleza, a liberdade, a eternidade, a comunhão com o Pai e uns com os outros, que o primeiro homem e a primeira mulher perderam. E Ele nos conquistou isso! Como não ama-lo? Como não desejar corresponder à seu chamado? Como não mudar de vida? Como não acreditar que minha vida tem beleza própria e dignidade únicas? Como não desejar odiar o pecado e tudo que me oprime e escraviza e não dar a vida para que mais pessoas conheçam Jesus e seu Amor? Como não ter esperança para cada pessoa e situação de sofrimento e dor que nos cerca? Aí se encontra a fonte de toda esperança, e esta fonte jamais secará pois ela jorra até a eternidade e para sempre, para sempre...

Quis demais escrever todos os dias, mas com a agenda muito cheia por causa do retiro para as pessoas da Obra além das coisas de casa para ajudar, me vi impedida. Mas ainda dá para retomar e tentar em poucas palavras relatar o quase indizível destes tríduo pascal já que o mistério e a unção das celebrações litúrgicas jamais se repetem. Tento porém, fazê-lo no desejo de partilhar e fazer chegar, quem sabe, um sopro de esperança e de ressurreição para quem, eventualmente, leia este blog missionário. Se Deus me deu a alegria de poder passar a Semana Santa onde ela de fato aconteceu na História, o mínimo que tenho que fazer é partilhar.

No sábado pela manhã já se celebra a vitória do Senhor. Em determinado momento da celebração o sacerdote passa pelos corredores da igreja jogando folhas de louro que representam a vitória do Senhor, sua coroa de espinhos é substituída pela coroa de Rei e Vitorioso. O texto do dia é o de S.Mateus onde os anjos perguntam às mulheres porque elas procuram entre os mortos aquele que ressuscitou. É o grande grito da ressurreição: não é mais preciso temer nada nem ninguém, nem a si memso, pois Jesus está vivo! Ele é o Senhor! Ele é Amor absoluto! Ele é Senhor de todas as realidade humanas e sobrenaturais, inclusive e principalmente Senhor de todas as situações de sofrimento e dor, de pecado e morte, pois não há nada que não tenha sido alcançado pelo amor e a salvação de Jesus! O bispo Elias Chacour pregou com tal autoridade espiritual que mesmo a gente ouvindo em árabe e recebendo a tradução somente das principais idéias, tinha a impressão de ver um apóstolo, de estar diante de um homem que verdadeiramente tocou o Ressuscitado que passou pela Cruz!

A festa de sábado canta fundamentalmente a descida de Jesus em busca de Adão e Eva na região dos mortos. Os cânticos milenares, repetem no refrão as palavras do Senhor que chama os homens e as mulheres, obras de sua mão à vida, à liberdade. São mais ou menos aquelas palavras da famosa homilia do Sábado Santo que diz: 'Levanta-te obra das minhas mãos! Levanta-te, ó minha imagem, tu que foste criado à minha semelhança. Levanta-te saiamos daqui: tu em em mim e eu em ti, somos uma só e indivisível pessoa'. Foi uma novidade para mim celebrar esta descida à mansão dos mortos antes de subir ressuscitado para os vivos! Dizer que me emocionei é pouco... carregava comigo todos aqueles que amo e por cada pessoa pedi que o Senhor descesse à mansão dos mortos e os ressuscitasse.

Foi uma experiência muita profunda. Foi uma experiência 'esponsal', que é aquele Amor que encanta, atrai, constrange, cura, dá segurança e seduz, como diz o profeta Jeremias. É como se a minha compreensão não só intelectual mas espiritual principalmente, tivesse se alargado a respeito da salvação de Jesus. O Senhor desce aos infernos, aos túmulos, às escuridões, ao impensável e definitivamente perdido, quebrado, destorcido, arrasado, esmagado, morto, destruído, em busca das pessoas, em busca de mim e de cada um e cada uma para de lá nos tirar...

Neste dia também canta-se um canto dos anjos que cercam Nossa Senhora, Maryam, para lhe contar que seu Filho Amado ressuscitara. Os anjos que estavam presentes na hora da Anunciação da Encarnação de Jesus, felizes, querem anunciar que Ele está vivo e que venceu a morte com a sua morte. Conta-se a tradição que este hino foi inspirado em sonho por revelação de Deus a uma criança. Verdade ou não, importa pouco, porque é tão lindo e tão celestial que a gente só falta mesmo ver os anjos cantando em coro junto com os fiéis que nesta hora cantam com toda força.

A Igreja Oriental tem profunda reverência e amor à Virgem, à Theotokos, à Maria, a bela ovelinha como a chamou Melito, padre da Igreja, bispo de Sardes. Ela é a bela Rainha de Jerusalém, a Rainha da Cidade da Paz, e não há quem não a ame profundamente por aqui. Só mesmo os protestantes que por cegueira espiritual, coitados, preferem ficar órfãos, como se a Virgem não lhes pudesse ensinar como ninguém a amar e adorar, servir e viver para o Filho...

No domingo de Páscoa, a igreja estava lotada às 5 da manhã para a auvorada da Ressurreição. Com todo espírito aventureiro que caracteriza a Comunidade Shalom, dormimos em Haifa, na casa de uma família da Obra, para podermos chegar nesta hora na Catedral. O primeiro ato litúrgico foi acender as velas no Círio Pascal. Todos saem. Todos mesmo pois a igreja fica às escuras e as portas são fechadas. Do lado de fora há uma longa salmodia, sempre cantada pois não há ato litúrgico no rito católico-melquita, fora a homilia do sacerdote, obviamente, que não seja cantado. Mesmo que no princípio a gente estranhe, acostumados que estamos com nossas melodias 'ocidentais' e tantos instrumentos, com o tempo, as vozes e somente as vozes mais as melodias orientais que 'combinam' com o árabe, vão criando espaço interior e estético conquistando seu lugar ao sol no quesito beleza e apreço.

Depois da salmodia o bispo bate três vezes na porta da igreja com a cruz, e pede para entrar. De dentro se pergunta quem é. Há um seminarista ou um cantor que faz este papel. O diálogo deles porém se dá com o salmo 24 que diz: 'Levantai as vossas portas pois o Rei da Glória quer entrar! É o Rei da Glória! O Senhor todo poderoso! É Ele quem vai entrar!'. Se alguém quiser imaginar uma cena belíssima, pode imaginar esta pois seguramente foi. As portas são abertas e todos com as velas acesas entram. Ainda é noite do lado de fora, mas a vitória do Senhor, sua Luz e Vida, chegou finalmente à região dos vivos!
A celebração durou aproximadamente 3 horas e às 8 quando saimos, o sol de primavera brilhava forte e radiante e todos se abraçavam e diziam: o Senhor ressuscitou! (El-massih qam) e respondem: verdadeiramente ressuscitou (haqan qam!). Não tem aleluia porque no rito melquita não se exclui nem o glória nem o aleluia durante a quaresma nas celebrações eucarísticas. O clima, os paramentos, as leituras são próprias mas os cânticos que têm louvor e aleluia permanecem sendo cantados.

Domingo à noite fomos celebrar como irmãos, as três casas da Terra Santa, em Nazaré. Rezamos juntos como vocação Shalom, como irmãos, como leigos consagrados e 'almas esposas' e o júbilo e a gratidão nos alcançou a todos. O Senhor nos pediu que deixássemos que Ele nos salvasse onde em nós ainda havia morte e prisão, dor e tristeza, marcas do pecado pois seu maior desejo é nos ver totalmente livres e ressuscitados para o Amor.
Na foto acima tirada depois da oração e minutos antes do delicioso yaksoba que nos esperava, estamos todos, com exceção da Lorena que fez questão de bater a foto. O franciscano sentado que está conosco é o Frei Sinisha, croata, grande amigo da Comunidade, e o outro, de pé, é Frei Ricardo, argentino, superior do convento de Nazaré, que tem protegido, ajudado e de certa maneira sido conquistado pelo novo que o Shalom, como carisma e Comunidade Nova traz à Igreja. Tudo faz parte dos caminhos perfeitos e misteriosos do Senhor... Eles passaram por lá para dar um abraço de Feliz Páscoa e entraram na foto meio sem querer... Quem sabe esta foto um dia não será histórica?
Histórica foi esta Semana Santa! Aleluia! Aleluia! E os anjos com certeza dizem Amém.