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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Um texto antigo reescrito

Eu tenho a impressão que já postei este artigo que escrevi abaixo. No entanto como eu fiz alguns acréscimos e retoques achei que valia a pena publicar novamente. A festa de hoje é tão especial, tão cara para quem é consagrado e quer erguer com a própria vida o Menino Jesus para que muitos conheçam o Seu Amor e a Paz que somente Ele pode dar, que a gente nunca se cansa de falar dela e do que ela representa... Que Nossa Senhora e S.José nos ajudem nesse caminho maravilhoso de esperança e de amizade com Jesus nos átrios da vida.

OS JOVENS ANA E SIMEÃO

Não creio que encontremos no Brasil um jovem que se chame Simeão, ou mesmo alguém que de este nome a um filho pois este personagem bíblico, citado somente em S.Lucas, por tratar da infância de Jesus, era um ancião. Simão até vai, por causa de S.Pedro, mas Simeão tem jeito de nome antigo, fora de moda. Ana teve mais sorte, não ficou com a mesma fama e continua sendo um nome belíssimo e muito popular em todas as culturas e idiomas. Esta Ana do capítulo 2 de S.Lucas era uma senhora bastante idosa e seus 84 anos testemunham uma rara longevidade, principalmente tratando-se da Antiguidade.

Mas quem foram estes dois discretos personagens, anciãos, servos bons e fiéis, que em Jerusalém, no Templo, quem sabe amigos de longa data, tem nos braços o Menino Jesus? O que podemos com eles aprender, além do evidente louvor fruto de vida de oração, e da fé nas promessas do Senhor, em suas palavras? Quem são esses dois que abordam José e Maria nos átrios do templo e reconhecem na criança recém-nascida o Messias que havia de vir?

Antes, porém, de partilharmos os frutos da meditação feita sobre este texto, falemos sobre as informações bíblicas contidas neste encontro da Sagrada Família com estes dois anciãos que podem enriquecer a todos e que mostram o encontro da Antiga e da Nova Aliança. Somente aqui em Israel fiquei sabendo que se hoje dia 2 de fevereiro celebramos a apresentação de Jesus no Templo de Jerusalém, amanhã, dia 3 de fevereiro, será a festa de Sta.Ana e de S.Simeão, festa importante no mundo cristão do Oriente.

No dia 2 de fevereiro completa-se exatamente 40 dias após o Natal e a Igreja celebra a primeira entrada de Jesus no Templo (cf. Lucas 2:22-40). No Evangelho, está escrito que seus pais, observantes da Lei Mosaica vão ao Templo no fim do tempo de purificação de Maria (40 dias após o nascimento de um filho de acordo com a Lei de Moisés, como está escrito em Levítico 12:2-8) . São Lucas também faz referência às leis sobre a redenção do primogênito (mencionado no Êxodo 13). De acordo com a Lei, a mulher é chamada a levar 'um cordeiro de um ano para o holocausto, e um pombo ou uma rola para oferta pela expiação dos pecados' (Levítico 12:6). O fato de que a família de Jesus trouxe 'duas rolas ou dois pombinhos' é um sinal claro de que a família era pobre. A Lei de Moisés afirma explicitamente: 'Se ela não pode pagar uma ovelha, ela tomará duas rolas ou dois pombinhos, um para o holocausto e outro para a expiação do pecado, e o sacerdote fará expiação em seu nome, e ela estará purificada'. (Levítico 12:8). Lucas combina a observância do mandamento de Levítico com o preceito relativo à redenção do primogênito em Êxodo 13:2 e 13:11-16.

Jesus é como nós em tudo, e assim ele também deve ser resgatado exatamente como ele foi circuncidado ao oitavo dia (cf. Lucas 2:21). A festa da apresentação de Jesus no Templo passou a ser celebrada no IV século e era chamada a 'Festa do Encontro': o encontro entre Jesus e Simeão e Ana, que representam todo o povo de Israel, a antiga Aliança.

Interessante encontrar os fundamentos bíblicos da celebração litúrgica católica e pensar em todos os que nos precederam celebrando esta mesma festa.

Mas voltando aos nossos personagens Simeão e Ana, quem nos falou a respeito deles em 2009 em Nazaré, exatamente nesta mesma data, quando estava em peregrinação na Terra Santa, foi o biblista Gregorio Vivaldelli, grande amigo e irmão da Comunidade Shalom, italiano de Riva del Garda. Como nesta data se comemora a vida consagrada de homens e de mulheres, religiosos e leigos, ele aproveitou para fazer uma meditação exatamente sobre estes dois santos idosos com aqueles que puderam comparecer. O que escrevo a seguir é uma pálida síntese de minhas anotações e um pálido reflexo do que aprendemos naquele dia. Só sei que foi tão simples e tão ungido que espero continue alcançando a quem porventura ler este artigo.

Ana em sua velhice representa todos os estados de vida servindo o Senhor, em oração, à espera do Senhor que vem, nos ensinou o Gregório. Ela representa todas as faixas etárias e estados civis, acrescento eu, pois o evangelista faz questão de dizer que ela era viúva. E quantas milhares de mulheres viúvas, separadas, divorciadas reconstroem a própria vida 'nos átrios do templo', na vida comunitária, paroquial, nos apostolados, etc?

Ana nos ensina o valor de encontrar Jesus, nas realidades ordinárias da missão cotidiana de nossas vidas. Reconhecer Jesus onde Ele está e onde Ele se esconde. Se Ana não tivesse esta sensibilidade espiritual dada pelo Espírito Santo e pelo contato com os profetas, a Palavra de Deus, não reconheceria o Menino no braço de sua Mãe, pois Maria e José eram um casal igual a todos os outros que passavam pelo templo em meio à multidão e quem já teve a alegria de ir à Jerusalém sabe como aquele espaço é imenso. Mas Ana reconheceu Jesus e o teve em seus braços, diante de seus olhos. Deve tê-lo abraçado e dado 'um cheiro' contemplando-o com toda ternura e emoção.

Já Simeão além de erguer a voz em ação de graças, testemunhando publicamente sua fé e amor pelo Senhor, nos aponta um outro caminho surpreendente: o da esperança e da confiança nas novas gerações! Nos disse o Gregorio que 'o Evangelho nos transmite toda a comovente confiança de um homem ancião no pequeno Jesus. Essa imagem que nos é apresentada na festa da Apresentação do Senhor é verdadeiramente bela, mais ainda se considerarmos com que facilidade ao longo da História adultos e anciãos consideraram os jovens como motivo de lamentação'. E para ilustrar, nosso amigo biblista nos surpreendeu com algumas citações que pareciam ter sido colhidas das conversas que circulam nas escolas, nas ruas, nas famílias e em quase todos os ambientes e publicações:

"A juventude agora um triste lixo. Não tem mais uma gota de bom humor e não fazem outra coisa que protestar" (Walter von Vogelweide, 1200 dC)

"Nossa juventude vive na abundância, no luxo. Mal educada, despreza toda autoridade e não demonstra nenhum respeito pelos mais velhos. Nossos filhos são verdadeiros egoistas que frequentemente se rebelam contra contra os pais" (Sócrates, 420-395 aC)

"Não há mais nenhuma esperança para o futuro do nosso país quando a 'desmiolada' juventude de hoje tiver o poder em mãos no amanhã. Esta juventude é indomável, sem freio e presunçosa" (Esíodo, 720 aC)

"O nosso mundo chegou a uma situação crítica. Os filhos escarnecem seus pais, são insubordinados é só querem se divertir" (hieróglico de 2000 aC)

"A nossa juventude está corrompida até a medula e é muito pior que as gerações passadas, esta juventude não terá condições de salvar nossa cultura" (escrito cuneiforme de 3000 aC).

Quem chegou até aqui deve ter se sentido tão apanhado, rindo meio sem graça, como aconteceu com a assembléia de consagrados em Nazaré naquela noite memorável. Fazemos hoje a mesma coisa que faziam ou fazem os pagãos! Os santos como S.João Bosco e o amadíssimo Beato João Paulo II nunca temeram a juventude e depositaram sobre ela toda a sua esperança, vendo-a com os olhos de grande amor, vendo nos jovens o potencial a ser desabrochado e formado.

O mesmo podermos dizer de nosso também amado e respeitado fundador, Moysés Azevedo, que sendo jovem ofertou sua juventude aos pés do Papa João Paulo II para evangelizar outros jovens levando-os a conhecer Jesus Cristo, o Shalom do Pai, o Ressuscitado que passou Cruz, a única fonte da verdadeira alegria, paz e sentido de vida. Em suas próprias palavras, na Carta escrita à Comunidade na Páscoa de 2005 ele vai dizer que os jovens são 'A alegria de Deus e minha alegria'.

Que Ana e Simeão intercedam por nós. Ao colocarem o Menino nos braços e louvarem a Deus eles nos ensinam a colocar Nele a confiança, guardando um olhar posiitvo sobre a realidade, pois Deus se fez criança. Há esperança para o futuro exatamente por causa dos jovens. 'Não se trata de nos tornarmos pessoas iludidas e incapzes de reconhecer o drama que cerca a vida de milhões de jovens, na violência desconcertante, na banalidade viciante da internet ou no vazio dos ídolos escolhidos como modelo da existência', finalizava Vivaldelli, mas Jesus e Maria ao apresentarem o Menino no Templo nos apresentam a novidade que está presente em cada nova vida, criança e jovem.

Um ancião e uma anciã abraçam um bebê mas naquele Menino abraçam o futuro, o próprio futuro. A esperança é pequena como é pequena cada criança porém plena de vitalidade e de potência. Simeão e Ana se alegram porque alguém vem depois deles e continuará a obra que eles começaram e se alegram com a própria decadência que dá espaço ao novo, ao que vem a seguir. E isso não é fácil, deixar que o velho que há em nós acolha o Menino, ou o menino, ou seja, tudo aquilo que é novo e que Deus nos apresenta, muitas vezes de maneira imprevisível... Mas este é o nosso convite hoje: renovar nossa oferta de vida, dar graças erguendo os braços e a alma, dando espaço para que a esperança nos inebrie e nos leve à frente em nossa missão onde estivermos. Jesus que é Ele mesmo o Templo do Altíssimo vem ao nosso encontro nos átrios da vida e se coloca em nossos braços.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Arrumando as Malas

Amanhã viajo para o Brasil de férias, na esperança de descansar, ver muitas pessoas queridas e também resolver trilhões de coisas (ô exagero!). Check ups médicos, dentista, banco, assuntos pendentes de quem partiu em missão por dois anos já completou o terceiro e não sabe mais onde vai parar. De uma coisa estou segura e certa depois deste tempo em Israel, tenho a missão na minha genética espiritual e não sei mais viver sem ser assim. Creio que mesmo quando voltar para o Brasil manterei esta disposição de partida, de envio, este desejo de serviço e evangelização que Deus me deu. Não produzi todos os frutos que o Senhor mereceria receber mas como a é Dele, eu me abandono e confio. Tudo será achado bom a seu tempo e este versículo da Palavra de Deus tem falado muito ao meu coração.

Neste tempo fora da missão não pretendo deixar de trabalhar no que diz respeito à escrita pois, se Deus quiser, terei tempo para terminar o livrinho sobre a viagem missionária à África, à Nigéria, que prometi fazer, (os posts sobre a África são os mais visitados do blog), e continuarei escrevendo neste espaço virtual. Logisticamente estarei do outro lado do oceano e do mundo e pela mudança de perspectiva as notícias e impressões serão outras, mesmo que o meio permaneça o mesmo.

Chego para o aniversário da minha mãe no dia 15 de julho, no Rio de Janeiro em pleno inverno, temperatura amena e gostosa, e fujo do verão forte de Israel que me desagrada. Estou muito feliz por poder revê-la depois de quase dois anos e estar em casa - na primeira casa da existência - , ouvindo a  língua mãe e vivendo na cultura mãe é bom demais. Acho que ando carente! É muita mãe para um único coração.

Recebi esta mensagem que segue abaixo e partilho-a para aqueles que vão participar da Jornada Mundial da Juventude em Madri para que possam conhecer mais um blog e um espaço virtual bem interessante. Desta vez eu não poderei ir à Jornada na Espanha porque Deus assim não quis mas na próxima, no Rio de Janeiro, nem precisa perguntar, mamãe e toda a família me esperam, de braços abertos, eles e o Cristo Redentor... 

Ah! Também tem o link to Halleluya gravado em video pela equipe do Franciscan Multimedia Center de Jerusalem, é a primeira matéria:

www.terrasantanews.org

Por fim, o email falando da Jornada em Madri. Vai ser bom demais, e que todos os Tomés da Espanha aprendam e vejam que a Igreja é jovem e que há uma multidão de santos de calça jeans em cujos corações habita Jesus Cristo, o Senhor.

Olá, Elena!

Meu nome é Moisés e, assim como o Fernando Geronazzo, trabalho com o Setor Juventude da CNBB, no site Jovens Conectados. Finalmente publicamos seu belíssimo testemunho sobre o encontro com o Papa em 1985. Estava aguardando chegar mais próximo da Jornada, para aumentar o impacto.


Deve ter sido realmente uma experiência fantástica! Se Deus quiser, também viverei algo parecido em Madri. Não vejo a hora de chegar!

Tomei a liberdade de fazer pequenas edições no texto. Apenas redividi alguns parágrafos, coloquei intertítulos e cortei a parte sobre Medjudorje, mas colocando o link para o texto completo em seu blog. Fiz essas mexidas para facilitar a leitura, apenas isso.

Muito obrigado pelo seu testemunho!

Abraço,

Moisés Nazário
Equipe de Comunicação.




sábado, 16 de abril de 2011

JMJ - WYD - Eu estava lá!

Estava vendo as notícias no www.h2o,news esta semana, e um dos videos fazia uma retrospectiva sobre a Jornada Mundial da Juventude e o Papa João Paulo II. Muito emocionantes as imagens e a revolução que representou cada JMJ em cada país onde ela aconteceu. De repente me caiu a ficha de que eu participei da primeira Jornada Mundial da Juventude - que ainda não tinha esse nome - em 1985 em Roma! Meu Deus! Eu estava lá! E como um filme de final de feliz com partes de suspense e muitas experiências de fé, eu me lembrei de tudo e resolvi contar aqui no blog, com muita emoção e gratidão, como testemunho.

1985 foi o Ano Internacional da Juventude criado pelo Papa João Paulo II após seu primeiro grande encontro com os jovens em Roma no ano anterior, 84, no seu grande afã de ir ao encontro dos jovens para anunciar-lhes Jesus e desafia-los à santidade feliz. Uma geração de santos de calça jeans! Que imagem mais fantástica e apropriada. Nesta época eu morava no Rio de Janeiro com a família - mãe e irmãos pois meu pai havia falecido em 82 - e trabalhava como professora de inglês e de religião para crianças. Frequentava o grupo Bom Pastor, hoje Comunidade Bom Pastor, na paróquia de Nossa Senhora de Copacabana. Esta era a minha vida e eu era completamente engajada na vida da igreja e do grupo de oração. Também namorava o Afonso Marra, pessoa muito especial que também participava do grupo de oração e de todas as atividades evanfelizadoras comigo. Éramos muito amigos além de namorados. 

Não sei exatamente em que mês surgiu o convite para que as paróquias e as comunidades brasileiras mandassem os jovens para participar deste encontro mundial em Roma, que contaria com palestras, um encontro com o Santo Padre e uma oportunidade ímpar de ver gente do mundo todo. Seriam cinco dias em setembro, ou uma semana, não tenho mais certeza. Porém, como ir? Mesmo timidamente eu e mais duas pessoas do grupo - Laura Beatriz e Margarida - ou simplesmente Laurinha e Guida,  começamos a nos movimentar e a desejar ir, fazendo contas e planos... parecia impossível. Não havia dinheiro que desse conta nem quem nos ajudasse. Me lembro que rezamos e que a Palavra de Deus nos apontava com clareza que o Senhor abriria as portas. Mas como Deus parece ser especialista em roteiro de thriller - com todo respeito -  quando tudo parece enrolado e sem saída e a gente só tem mesmo a fé na Sua Palavra, Ele manifesta a Sua Vontade e inebria os corações com Sua fidelidade. Me lembro bem, faltavam somente duas semanas para a viagem quando todas as portas se abriram. O Fernando (que da eternidade deve se lembrar disso com alegria) mais o Hugo, dois grandes irmãos e amigos da Comunidade Bom Pastor, resolveram adotar a nossa causa quando souberam que não havia mais saída e moveram as pessoas do grupo de oração a nos ajudarem já que nós éramos servas e representaríamos todo o grupo Bom Pastor e a juventude católica do Rio de Janeiro. Nosso desejo de participar não era um capricho e nossa ida representava um testemunho da vitalidade da Igreja do Brasil. Estas palavras simples mas cheias de sabedoria atingiram o coração das centenas de pessoas que a cada segunda-feira há 35 anos lotam a paróquia e, de doação em doação, a soma foi alcançada. E mais: ainda nos deram um dinheirinho extra para uns presentinhos. Muito lindo é que a Guida conseguiu a doação da passagem pela Alitália e o funcionário que lhe entregou a passagem em nome da empresa aérea era latino americano - argentino? mexicano? - e se chamava Jesus! Nós quase morremos de tanto rir. Assim é Deus, tem alegria e bom humor.

A viagem em si foi inesquecível e não me lembro bem do número mas éramos aproximadamente 200 jovens. Uma das impressões mais fortes foi a experiência de catolicidade, de universalidade, da Igreja, do povo de Deus, ao ver tantos belos rostos humanos diferentes do meu em cores e jeitos. Na missa de encerramento, na hora do Pai-Nosso me emocionei tremendamente pois a minha frente, me lembro como numa fotografia registrada na memória, estava um africano, atrás de mim um asiático, japonês, à minha direita uma irlandesa ruivíssima e à minha esquerda uma peruana de cabelos negros e jeito indígena. E era o amor de Jesus, o batismo em Sua morte e ressurreição que nos fazia um só corpo e uma só coração. Era Ele a fonte do nosso amor e de nossa unidade na mais bela e desconcertante diversidade. 

Uma outra pessoa que foi nos visitar foi o Cardeal Josef Suenens amigo pessoal do Papa João Paulo II e pessoa chave no Concílio Vaticano e nos primórdios da Renovação Carismática. Um velhinho adorável de olhar sorridente, magro e alto que passeou no meio dos jovens com a maior simplicidade e nos falou expontaneamente sobre a Igreja e a vida da fé. Não me lembro mais da ordem das palestras, me lembro bem do efeito que este retiro, congresso, encontro, aventura, desafio, um pouco de cada coisa, deixou em mim. Os fatos se entrelaçam mais pelo efeito causado do que pela cronologia com que aconteceram. Também estava lá o José Prado Flores um dos primeiros leigos líderes da Renovação Carismática a estudar teologia, mexicano, que nos deu o testemunho sobre vocação e estado de vida, de como o Senhor o guiou até o matrimônio certo impedindo que ele se casasse com a pessoa errada. Causou-nos forte impressão ele contar sobre a simplicidade de seu casamento e por ter preferido à festa com muito glamour, ir à Caná em Israel e casar-se na presença dos pais dele e da noiva mais o sacerdote, como testemunhas.

Lembro-me do rosto de alguns outros brasileiros que compunham a comitiva mas não me lembro dos nomes. Era gente de Foz do Iguaçu. Tinha gente de S.Paulo também. Havia um padre de Campinas. Não posso deixar de contar que no avião, sentado exatamente atrás de mim estava o primeiro shalomita que conheci: um jovem bem magro e tímido representando os jovens católicos cearenses e a Comunidade Shalom ainda embrionária. Não era o Moysés. Era o Carmadélio, que saía do Brasil pela primeira vez e se encantava com tudo que via. Me lembro demais desse nosso primeiro contato. Este grupo de brasileiros resolveu juntar os trocados, alugar um ônibus e ir à Medjugorje quando acabasse o Congresso. Para tal façanha o primeiro passo era guardar todos os pães italianos e frutas - peras e maçãs - que nos serviam no café da manhã para servir de jantar e termos que pagar somente uma refeição por dia. E assim fizemos. Alugamos um ônibus e fomos de Roma até Pescara onde pegamos um navio destes enormes que transporta automóveis e ônibus, atravessamos o mar Adriático em plena tempestade a noite inteira - pense numa aventura! -e chegamos à antiga Iugoslávia. Passamos dois dias inteiros em Medjugorje e fomos a primeira peregrinação de brasileiros a esta vila visitada por Nossa Senhora. A vila era simplesmente uma vila sem qualquer infraestrutura e nos hospedamos na casa de uma família comum que por telefone contatamos pedindo acolhida. Graças a Deus as pessoas em Medjugorje falam italiano e por isso a comunicação foi possível. Conhecemos os videntes ainda bem jovens e só fizemos rezar e rezar e rezar. A atmosfera de santidade do local e das pessoas era contagiante e os testemunhos que nos contaram das famílias onde ficamos hospedados também era notável. Muita piedade, muita oração, jejum e vidas reconciliadas. Havia uns 60 padres do mundo todo celebrando a eucaristia, uma atrás da outra, alternando somente a língua. Testemunhamos a libertação de uma jovem mulher italiana atormentada pelo demônio que foi impressionante. Os padres que estavam na nossa excursão, um brasileiro e um panamenho, é que tiveram que intervir por conta da experiência de oração de libertação que tinham pela realidade de seus países. Eu, a Guida e outros brasileiros ficamos na porta da sala da sacristia onde acontecia a oração de libertação rezando o terço e afastando as crianças curiosas e espantadas com a cena. Vimos depois da oração esta mulher confessar-se e comungar e rezar com fisionomia transfigurada de amor e gratidão pelo que Jesus tinha feito. Estávamos presentes na missa das 18h - que era a hora das aparições - e me lembro que que a experiência era como se o tempo tivesse parado. A igreja lotadíssima em adoração profunda diante do mistério de Deus manifestado na presença da Santíssima Virgem. Como éramos jovens deixaram que sentássemos nos degraus ao lado do altar e a gente só fazia chorar inebriados de mir. A palavra Mir que é Paz lavava os corações de todos os presentes. Vale notar que coincidentemente quem estava em Medjogorje peregrinando nesta mesma data e que cantaram lindissimamente à capela uma música de ação de graças nesta missa especial, para Jesus e para Nossa Senhora foi o Gen Rosso, dos Focolare. Que missa inesquecível!

Me lembro que na primeira manhã que eu e a Guida saímos da casa onde estávamos hospedadas, pegamos uma ruela na direção errada e nos perdemos. Quem serviu de anjo da guarda e nos encontrou na estrada e nos fez voltar para a direção certa foi um jesuíta, Pe. Robert Faricy que fazia parte da delegação do Vaticano que estudava, ou estuda ainda, só Deus sabe, a veracidade das aparições de Medjugorje. Até hoje não sei se ele também se perdera como nós ou simplesmente estava caminhando e rezando contemplando os campos verdes enfeitados de árvores enormes com folhas alaranjados de outono, verdadeiramente lindos, da região onde estávamos. Sei que nessa aventura quase chegamos à Dubrovinik. Por causa da presença do Pe.Robert pudemos assistir em inglês a uma palestra com direito a perguntas como numa entrevista sobre as aparições marianas, sobre a postura prudente da Igreja e o porquê de cada coisa. Foi mais um presente de Deus. Sem contar que este mesmo jesuíta também estivera no Congresso de jovens conosco em Roma tendo sumido no último sem ninguém saber o que tinha acontecido. Nós descobrimos.

Em Roma as noites eram livres com temas culturais e os jovens de cada continente faziam uma apresentação artística. Não precisa nem dizer que os brasileiros deram show e fizemos todo mundo dançar, cantar, louvar, sair do lugar... Foi neste Congresso que pela primeira vez ouvi os mexicanos cantarem a música 'Los Animalitos' que fala da Arca de Noé que anos depois o Pe.Marcelo Rossi ia traduzir e fazer o Brasil inteiro cantar.

Uma das primeiras atividades culturais que tivemos, todos os jovens do Congresso, foi visitar Assis que era ainda bem simples sem tantos aparatos turísticos que passou a ter depois da década de 90. A turma de brasileiros conseguimos sem saber direito como, celebrar uma missa em português na tumba de S.Francisco. O fato de ver seus amigos e primeiros discípulos enterrados todos juntos, ao seu redor, bem próximos me deu forte experiência de amor fraterno, do chamado ao amor fraterno sincero. Para mim além da Porciúncula, da beleza da cidade, da vista, e do sobressalto tememdo dar de cara com Francisco quando virasse a esquina daquelas ruas de pedra medievais, o convento de Clara e rezar diante do Crucifixo que falou com Francisco me marcaram a alma. Na época eu havia aprendido uma versão em inglês de uma célebre oração do Poverello e quando me ajoelhei diante do Crucifixo, estava baixei os olhos e achei a oração escrita em todas as línguas para que os peregrinos rezassem. Nem precisa dizer que eu chorei para me acabar e cantei baixinho a música que até hoje sei de cor que diz assim: 

Most High and glorious God, bring light to the darkness of my heart,
give me right faith, certain hope and perfect charity,
oh Lord give insight and wisdom
so I might always discern your holy and true will 

E o encontro com o Papa João Paulo II? Aconteceu ou não? Logo no segundo dia recebemos a triste notícia de que ele não poderia mais nos encontrar por causa de um sério problema no sul da Itália - creio que na Sicília, por conta da Máfia, que estava no auge daquela operação conhecida como Mãos Limpas - que o obrigaria a viajar. Todo mundo murchou. No dia seguinte, porém, mais um recado: no último dia do congresso o Santo Padre nos receberia em sua capela privada, dentro do Vaticano, para a missa das 6 horas da manhã. Quase ninguém dormiu de tanta ansiedade. Quem tinha roupa típica foi à caráter, quem não tinha, vestiu-se o melhor que pôde. Passamos por segurança e revista rigorosa, um a um, e nos sentamos numa capela linda, em silêncio, com muita reverência pelo inusitado e pelo privilégio do convite. Quase que se ouvia os corações baterem de emoção e de ansiedade para ver o santo Padre de pertinho. Ele entrou pelo lado e celebrou a eucaristia com a maior serenidade e concentração. Profunda interiorização. Não sei dizer se havia outros padres co-celebrando pois nossa atenção era toda em João Paulo II. Sei, porém, que dois jovens seminaristas de SP, que trabalhavam com o 'Fradão' na recuperação de aditos de drogas, foram escolhidos para servir o altar. Eles quase enfartaram de tanta alegria. Fico me perguntando onde eles estarão hoje em dia... Um se chamava irmão Wagner.

No fim da missa para a nossa surpresa e delírio, João Paulo II se levantou e antes de sair resolveu nos dirigir umas palavrinhas espontaneamente em italiano. Foi bem curtinho, mas jamais vou me esquecer de duas coisas: primeiro que ele nos disse que rezava diariamente pelos jovens do mundo todo pois sabia que nos jovens estava a esperança e o futuro da Igreja, que nós então tivéssemos certeza de que estávamos presentes em sua oração e em seu coração. Se era assim quando ele estava no mundo, deve continuar do mesmo jeito no Céu! E, em segundo lugar, o Santo Padre nos fazia um convite pessoal: se queríamos nos comprometer com ele na evangelização do mundo. Foi uníssona e audível a resposta - a essa altura já não havia mais tanto silêncio - e todos nós levantamos a mão. Foi então que alguns assessores nos distribuíram um presente pessoal do Papa: uma cruz de metal, prateada, cópia do seu báculo, que mostra Jesus como uma seta apontando para ser lançado ao mundo, que nós erguemos segurando-a firmemente na mão, selando nosso compromisso com a evangelização do mundo!

Enquanto escrevo isso sinto forte emoção e gratidão pois esta cruz me acompanha todos estes anos. Enquanto escrevo tenho-a diante dos olhos. Como me arrependo pelo tempo da minha vida que eu esqueci do meu compromisso ou deixei-o em segundo plano e como amo a Deus por Ele jamais ter me 'demitido' da missão! Este Ano Internacional da Juventude aconteceu há 25 anos atrás, bodas de prata portanto, e se eu pouquíssimo ou nada fiz até agora, diferentemente de outros jovens, agora adultos que têm dado sua vida na Igreja e para a Igreja, peço ao Senhor que as bodas de ouro sejam comemoradas com as mãos menos vazias...

Também preciso testemunhar que ao ouvir a longa e muito boa entrevista dada pelo Moysés, Fundador da Comunidade Shalom ao Professor Felipe Aquino na TV Canção Nova no princípio de abril deste ano, me ocorreu uma pergunta importante: se eu saberia dizer quando o carisma shalom me havia sido comunidade por graça do Espírito Santo. Fiquei seriamente em dúvida já que minha história de salvação e de missão é marcada por várias etapas, mas vejo que Deus veio em meu auxílio e ao me levar a fazer memória das Jornadas Mundiais da Juventude e ao me lembrar deste encontro e desta missa com o santo Padre, Beato João Paulo II, eu constatei e entendi que foi em Roma, em setembro de 85 que a semente do carisma foi plantada em meu espírito e de lá nunca foi arrancada porque os chamados do Senhor são irrevogáveis, porque Ele é fiel e jamais volta atrás em suas eleições.

Se eu vou a JMJ em Madri em 2011 comemorar as Bodas de Prata e testemunhar o ardor e o amor pela evangelização? Seria bom demais, mais ainda se o Carmadélio também fosse, ambos agora de cabeça branca e o coração mais jovem do que nunca, sempre de jeans... Mas fora a brincadeira, seria um sonho mas estou na mesma situação de anos atrás, quando tudo começou, precisando de um milagre. O que importa é a vontade de Deus e Ele querendo tudo pode acontecer. Que o Beato e amado Papa João Paulo II interceda nesta intenção e por estes quarentões e cinquentões que o conheceram e se comprometeram com a evangelização do mundo na JMJ. Qie ele nos ajude a cumprir até o fim aquilo que prometemos. Que ele também interceda por todos os jovens que estão se preparando para ir à Espanha sem medir esforços. Que a presença de todos os que forem seja um grito forte de amor que acorde o mundo para a realidade e presença de Jesus Cristo! Amém! Shalom! Beato João Paulo II, rogai por nós!