quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Dag & Pita, um livro, sinal de gratidão na hora do adeus a Haifa


Almoçando com Lubna Jabbour na avenida Ben Gurion no coração turístico de Haifa (descobri que o restaurante é de uma primo dela), quatro dias antes de me mudar para Roma. 

Pois é, o discernimento foi fechado e após um bom tempo de oração e de leitura dos sinais dados por Deus pelas circunstâncias e no coração, percebi que este meu tempo de missão em Haifa tinha chegado ao fim. Quatro longos e fecundos anos. Cheios de dor, amor, muitas intervenções divinas, grandes alegrias comunitárias, longas esperas como foram os dois anos do processo policial pelo acidente, tantos amigos e amigas. Tempo de descobrir e amar a Terra Santa, a Igreja do oriente como mãe de toda a Igreja, tempo de conhecer Jerusalém a cidade mais importante do mujndo...

O bispo prestes a terminar seu mandato não precisava mais de mim e assim era preciso ir em frente. Roma parecia a melhor opção para continuar a seguir o caminho do Espírito Santo apontado para mim como Comunidade de Aliança. Também a identidade vocacional precisava ser mais bem vivida para que eu possa ser mais eu sendo tudo o que Deus quer. Quanto mais o tempo passa mesmo parecendo às vezes muito lento, mais me convenço que Deus me quer feliz e realizada e Ele tudo fará para que isso aconteça... 

Pareço fazer um caminho semelhante ao dos apóstolos como se le em Atos: após terem enchido Jerusalém com o nome de Jesus partiram para a evangelização além mar, até Roma. Evangelizar, a maior missão e chamado da vida, evangelizar com a vida... Me sinto tão devedora e tão aquém do tanto que recebi do Senhor nesses quatro anos em Israel, talvez seja por isso que sonho e peço um dia voltar, quem sabe para Jerusalém. Deixemos a Providência agir pelos caminhos da vida que mesmo quando são intricados para ela são sempre justos, retos, santos, de felicidade... é só uma questão de optar pela confiança. Chego em Roma para um tempo novo dado por Deus, às vésperas da abertura do Ano da Fé, para continuar buscando a sua face, e viver o seu amor, a sua vontade...

Lubna foi para mim uma irmã, uma amiga com quem muito aprendi a respeito de responsabilidade, de delicadeza no trato com o outro, na honestidade sem medida, na discrição... vou sentir falta dos nossos almoços-lanches de cada dia, do bom humor e das brincadeiras com as palavras em árabe, português, italiano, inglês... minha companheira de trabalho que tanto amo e que eu tenho certeza jamais se esquecerá da palavra cururu. Nos despedimos com alegria dizendo:a até ano que vem na Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro! 



Dia 26 de agosto, domingo, meu aniversário celebrado com todas as alegrias próprias que só pude viver na Pastoral Hebraica. Todos os missionários de Haifa e Isifya presentes mais os amados poloneses Pe. Roman Kaminski e Stella, sobrevivente do Holocausto, polonesa judia, salva por uma família católica. Como eu sinto saudade dessas pessoas, desses irmãos... isso sem contar a turma de Nazaré que mal e mal eu tive tempo de me despedir.


Jantar delicioso com receita de frango ao creme de cebola, uma das especialidades da Viviane, mais saladinhas e outras guloseimas, inclusive um pudim de leite condensado. Essa alegria simples e genuína que se vive no ser família shalom, mesmo com todos os limites humanos que nos cercam, é um dos pontos fortes da graça do carisma dados à comunidade. Como é bom estar junto e tocar a alegria e a criatividade...o Thiago e a Yara fizeram uma paródia para mim, sensacional, com uma música tipicamente carioca, aquela que diz: alô Rio de Janeiro, aquele abraço, alô banda de Ipanema, aquele abraço... que grande dom alegrar-se com o simples e com o pouco. Obrigada meus irmãos, obrigada por tudo, com vocês aprendo a desfraldar a beleza do carisma e do ser comunidade católica shalom!


Festa na véspera, sábado, no Centro de Evangelização para os os três aniversariantes: Daniel (25), Elena (26) e Eran (24). O bom foi a música árabe e brasileira, forró santo, com direito a Juazeiro e Petrolina dançado até cansar e o suor cobrir o corpo todo. Como foi bom! Que grande alegria!


Cartaz da festa para nós três escrito em português, hebraico e árabe, a língua e a cultura de cada um.


Essa é a entrada da casa da Pastoral Hebraica em Haifa, que faz vez de igreja, capela, mas que não parece como tal, é só uma casa. É um local de encontro, de estudo da palavra, de partilha, de catequese, de se estar junto sem que qualquer convertido judeu ao catolicismo precise se sentir ameaçado. É um refúgio que não é secreto mas é discreto. É um dos lugares mais importantes para mim neste tempo de missão que Deus me deu.


Só para se ter uma idéia de que depois da sala de entrada e da pequena cozinha se tem o salão maior que é a capela. Eu estava chegando para a missa e para o terço da misericórdia, que acontece toda sexta-feira, após o almoço com a Lubna e resolvi ajudar a memória guardando essa foto com todo afeto do meu coração.

Enfim, um presente para todos os missionários da Comunidade Shalom e para os meus sobrinhos e sobrinhas. Este livrinho aconteceu dentro de mim em 2010. A idéia veio inteira quando eu estava na capela intercedendo pelo Sínodo das Igrejas do Oriente. Ou seja, uma coisa não tinha nada a ver com a outra mas acho que às vezes acontece isso: das profundezas do coração sobem presentes, intuições, idéias, soluções que nem mesmo a gente tem consciência de que estava gestando.

Muito mais do que querer saber se é bom ou ruim, eu resolvi fazer uma partilha porque acredito que nestes personagens está o meu coração e a busca da minha vivência missionária em terra santa de Israel. Dag é um peixe que sobrou do milagre da multiplicação dos pães operada por Jesus e Pita é um pão. Eles conversam sobre o viram e viveram e falam sobre o Davi que o rapazinho que os levou como lanche... No Davi todos os jovens do mundo que querem ver Jesus e no Dag e no Pita todos os missionários, homens e mulheres de todas as idades que amam Jesus. É bom lembrar que Dag é peixe em hebraico moderno e Pita é o nome do pão árabe mais comum na Palestina no passado e no presente. Meu coração me revelou somente um segredo: quando se parte em missão se é como Davi, se dá tudo, se perde tudo, porque Jesus precisa. Quando se vive a missão, porém, somos dag e pita, nos tornamos o que é ofertado, nos tornamos alimento a ser consumido. Essa é a minha oferta de gratidão por tudo que recebi no tempo que vivi em Israel, onde fui feliz, muito feliz. 

Quem sabe alguém não salva 20 minutos do dia e le a historinha até o fim para entender o que aconteceu com esses dois? Os comentários serão sempre bem vindos pois alegria e pontos de vista partilhados são sempre riquezas multiplicadas.  Eu até já fiz a tradução para o inglês, se alguém quiser é só pedir... Shalom!



DAG & PITA
Para todos os missionários da Comunidade Católica Shalom
 e para os meus sobrinhos e sobrinhas





P - Dag, é você?

D - Quem ‘tá me chamando? Não consigo ver nada.

P - Ei, é você mesmo! Estou reconhecendo a voz!

D – Peraí, será possível? É o Pita! PITA! Não acredito! Como é que você foi parar aí embaixo?

P – Como é que você foi parar aí em cima?

D – Fácil... pão é mais resistente que peixe. Eu fico no fundo do cesto e você em cima! Tá tudo bem?

P – Tá. E você, tá bem também?

D – Nem sei dizer... me assaram e comeram um pedacinho de mim, também estou sem rabo, mas resolveram me levar para casa, eu sobrei. Mas em certo sentido continuo inteiro, estou bem. E você continua inteirinho, redondinho?

P – Me partiram em dois e guardaram a metade para depois, mas assim como você continuo com a sensação de estar inteiro. Para onde estamos indo, você sabe?

D – Não faço idéia, Pita, mas não deve ser longe. Eu acho que os donos deste cesto são de Cafarnaum. Saimos assim que o dia raiou depois daquela noite de festa que durou horas e parecia não ter fim. Ouça só como conversam e balançam o cesto, tenho até medo de cair e eles nem notarem... aí embaixo tá apertado?

P – Sou magrinho e sendo metade é mais fácil de caber em qualquer canto. Acho que é mesmo Cafarnaum... pelas gretas do cesto vejo bem longe o Mar de Tiberíades. O mar... sua casa... Você lembra do mar muitas vezes com saudade?

D – Pita, dá um jeito de subir um pouquinho. Eu queria ver você e não só ouvir sua voz. Senti sua falta, pensei que nunca mais fosse te ver.

P – Vou tentar, ‘tô tentando. Subindo, subindo. ‘Licença, preciso falar com meu amigo Dag, ele ‘tá lá em cima. Obrigado’. ‘Ei, troca de lugar comigo? É... pra cima’. Dag, tá me vendo?

D – Onde?

P – Pra direita.

D – Amigo! Que bom te ver! Você tá meio acabado, mas é você! Desculpa aí...

P – Tudo bem, sem problema. Você também não ‘tá lá essas coisas: sem rabo, faltando escamas... mas eu te reconheceria de qualquer jeito e em qualquer lugar.

D – Mas estou bem... é sério!

P – Eu também. Dag, o que foi que aconteceu com a gente? Que aventura foi aquela?

D – Pita, antes de te responder, posso falar uma coisa? Por que eu tenho a impressão que você está brilhando, como se tivesse alguma coisa diferente em você?

P – Eu? Brilhando? Como assim?

D – Percebo em você uma luz que mesmo com tão pouca luz neste cesto, eu vejo. Que coisa curiosa.

P – Será que é a mesma luz que eu vejo em você? É engraçado mesmo...

D – Não sei explicar, mas é real. Se olho para mim me vejo um caco, comparado com o que eu era ontem de manhã quando cheguei aqui, mas agora me sinto completamente inteiro, por dentro, e tem uma serenidade tão especial no meu coração de peixe... E agora você vem me dizer que vê luz em mim. E acho que você está experimentando a mesma coisa que eu. Perdeu a metade, mas ‘tá com a cara tão boa, sorridente, nem um pouco triste... Tudo isso porque me reencontrou?

P – Sim e não, eu acho que você entende o que quero dizer, mas eu com certeza estou muito feliz por vê-lo de novo. A gente se conheceu na casa do Davi, me lembro bem, viajamos com ele e rapidamente viramos amigos. Nunca pensei ter um amigo peixe.

D – É, o Davi... tudo culpa dele! ‘Onde está o Davi? Será que os donos deste cesto onde estamos são parentes dele? Você o viu?

P – Não. A última vez que vi o Davi foi naquela hora do susto quando ele foi descoberto como o único que tinha levado lanche. E esse lanche éramos nós dois!

D – Mais os outros... mas a gente viu o Davi depois disso. Só depois do tumulto e da explosão de alegria com a nossa multiplicação é que nós nos separamos do Davi e também um do outro. Pensei que nunca mais fosse te ver, Pita!

P – Eu também perdi a noção das coisas. Os outros pães e peixes devem estar viajando como nós se já não foram consumidos por aquela multidão de pessoas.

D – Ficamos nós para contar a história...

P – ... e que história! E para testemunhar o milagre... Eu gostaria demais de rever o Davi, e saber como ele está depois de tudo o que aconteceu. Será que ele também está brilhando como nós?

D – Pode ser...

P – Ele também viu o que a gente viu, e sentiu o que a gente sentiu.

D – Bediuk!

P – O que é isso? Quem te ensinou essa palavra?

D – É hebraico e quer dizer exatamente. Eu ouvi várias palavras e essa foi uma delas. Eu gostei mesmo de tov que significa bom pois, quando eu cheguei com parte do cardume que havia sido pescado, essa palavra me salvou.

P – Como assim?

D – Os pescadores iam dizendo tov, lo tov enquando separavam os peixes. Deduzi logo que era, bom e não bom, presta e não presta... Ufa! Foi assim que eu escapei de ser jogado no lixo por não ser um peixe adulto. De tanto ouvir a palavra, guardei. Talvez se eu fosse menos aventureiro eu ainda estaria em casa, crescendo, engordando, e só me aventuraria em águas mais profundas daqui a um tempo. Mas fui atrás dos outros, mesmo sem ser tão adulto assim... agora, enquanto falo, dá uma saudade do mar azul, do silencio, da segurança... você tinha me perguntado sobre a minha casa, se eu sentia saudade...

P – Mas a gente não volta no tempo, o que está feito está feito, tem que continuar nadando Dag, com confiança...

D – Ahahaha! Nadando... não dá mais Pita, é impossível! Esqueceu que eu fui assado e que estou sem rabo? Água nunca mais! Mas a saudade do mar é boa, está na minha natureza. Eu não saí porque tinha brigado com ninguém, e nem estava fugindo de nada, e fui fazer o que eu achei que Deus queria que eu fizesse como peixe e pronto. Corri um pouco de risco por ser jovem, e ser descoberto pelo meu tamanho, mas como eu me juntei aos outros peixes mais fortes e adultos, deu certo no fim das contas. Sozinho eu não seria notado e nem teria coragem. Tem certas aventuras que só se faz em cardume, quando se está junto de outros...

P – Você tinha começado a me contar, na viagem que fizemos com o Davi, como você tinha ido parar na casa dele depois de ser pescado. Continua a história. Ficamos lá pouco tempo, acho que nem um dia inteiro. Você chegou de manhã junto com os outros na hora que a mãe do Davi tinha começado a fazer pão. Mas foi só por volta da hora do almoço, talvez um pouco mais cedo, que o Davi nos pegou para a viagem. Ele resolveu se unir a uns primos para matar a curiosidade e conhecer o Rabi mais famoso da Galiléia. Davi tinha muita curiosidade a respeito dele. Saiu antes de começar o Shabat. Pegou a mim e outros quatro pedaços de pão, correu até onde os peixes estavam guardados no sal e pegou você e um outro, enfiou tudo em um embornal e saiu correndo. Você viu se ele pegou água?

D – Não faço idéia. Só sei que eu gostei de ter sido um dos dois peixes escolhidos. Como eu estava bem em cima da pilha, fui o primeiro que ele pegou. Quando eu entrei, para continuar a história, você já estava lá, me lembro bem, com uma cara danada de séria. Tenho que rir, Pita! Tinham deixado você tostado demais, quase que virou farinha... Eu gostei de ter sido pego porque gosto de aventura, de novidade e pelo menos antes de virar refeição podia passear mais um pouco. Você sabe porque o Davi resolveu levar um lanche?

P – Porque ele tem fome o dia inteiro! Coisa de gente jovem. Assim que a mãe dele acabou de me assar junto com outros, foi logo dizendo: Davi, não é pra comer agora, só mais tarde!

D – E como ele foi muito obediente, pra não dizer o contrário, resolveu nos levar meio escondidos no embornal para comer mais tarde... Se não fosse pelo Davi nós não teríamos conhecido Jesus, já pensou nisso? A vida tem tantas surpresas... Deus tem tantas surpresas guardadas nas voltas da vida...

P – Sabe o que eu acho, Dag, depois de tudo o que aconteceu? E eu acho que você vai concordar comigo...

D – Diz...

P – Eu acho que o Davi estava escondendo o jogo. De há muito ele queria conhecer esse tal Rabi e só estava esperando a chance e como a chance aconteceu, porque o povo dava sempre notícia de onde Ele ia passar, ficar, falar, o Davi resolveu que aquela era a chance dele. Para não perder a viagem, e sem querer correr o risco de ter que voltar antes da hora, levou a merenda para a hora que a fome apertasse. Já pensou se ele tivesse que ficar a noite toda de plantão em vigília? Todo mundo sabia que este Rabi vindo de Nazaré gostava muito de rezar e que, frequentemente, ficava sozinho, a noite inteira, conversando com Deus. Depois descia da montanha e revelava os segredos do Reino de Deus, contava muitas parábolas explicando a Torah, curava os doentes... Parece que Ele sempre tinha compaixão pelos que sofrem e gosta de falar sobre o amor de Deus e de provar como o amor de Deus é...

D – Quer aprender outra palavra?

P – Quero, mas não agora, depois...

D – ‘Tá bom, é porque eu gosto de partilhar as coisas com você e a gente tem pouco tempo...

P – Eu também gosto, mas volta para o assunto, Dag, eu quero saber o que você acha dessa história do Davi!

D – Eu concordo com você, Pita. O Davi queria dar um jeito de ver Jesus, de chegar perto dele, ele só não podia imaginar que seria do jeito que foi...

P – ... um jeito tão espetacular!

D – Não sei se cheguei a comentar com você sobre isso mas, na viagem, eu soube pelo outro peixe que estava ao meu lado que o Davi estava doido para saber como é que podia virar discípulo... se bem que não funciona assim. No caso deste Rabi, Jesus, é Ele quem chama quem Ele quer, do jeito que quer. Cada figura!

P – É só olhar pra gente...!

D – Tomara que não falte muito pra gente chegar, ‘tô meio cansado...

P – Eu também... acho que é porque a gente não para de falar, falar também cansa. Mas o jeito é a gente continuar conversando porque ao menos a gente se distrai e faz memória de uma intervenção de Deus extraordinária. Nesta história toda, Dag, o que mais te impressionou?

D – É difícil escolher uma coisa só... acho que foi tudo, mas se eu tivesse que escolher acho que especial foi a hora que chegamos bem perto de Jesus. Para mim foi o máximo! E só de lembrar a alegria volta. Eu tive um pouco de ansiedade quando o Davi nos pegou do embornal – lembra como as mãos dele tremiam? – para nos entregar para aquele discípulo de Jesus. Como era mesmo o nome?

P – André. Foi o André que saiu andando no meio do povo procurando quem tinha levado alguma comida, lanche, merenda, bebida, se alguém tinha algo a ser colocado em comum, pão, figo, uva, tâmara, água...

D – Peixe...

P – E o pior é que as pessoas não tinham levado nada. Vai entender! Como é que as pessoas saem assim com tanta pressa sem levar nada? Acho que é a vontade de ser curado, curiosidade... as palavras de Jesus tem este magnetismo. Tudo o que Ele falou ainda está dentro de mim...

D – Só o Davi tinha um plano estratégico... inteligente o rapaz! Pensa com o estômago! Mas sem brincadeira, acho que por ser filho de pescador viu o pai fazer as coisas pensadas e não por impulso e aprendeu com ele. O Davi está sempre com fome, mas, soube usar a inteligência também. Bom pescador tem que saber o que faz antes de sair para pescar se não as redes não voltam cheias...

P – Sabe Dag, quando o Davi falou para o André que ele tinha uns pães e uns peixes eu pensei que fosse o nosso fim, mas, depois, pensando bem, foi o nosso começo! O Davi foi muito generoso, ele deu tudo o que tinha! Não teve muito tempo para pensar, deu meio no susto, na surpresa de ter sido visto e chamado no meio da multidão.

D – E quem não daria tudo? O André bem grandão, com aquele corpão de pescador, voz grave cheia de autoridade... Bastou cruzarem o olhar para o Davi não titubear nem mais um minuto: nos tirou do embornal e lá fomos nós.

P – É, foi mesmo, exatamente assim... ele ficou meio nervoso na presença do André, a gente viu, mas ele entregou tudo o que tinha porque quis, sem argumentar, o que seria natural na sua idade e temperamento. O Davi também enxergou naquela situação inesperada uma oportunidade de ver Jesus face a face e levado pela mão de um discípulo e não embolado no meio da multidão.

D – Será que ele vai seguir Jesus?

P – Que pergunta Dag, você tem alguma dúvida? Se até nós não temos como voltar atrás e negar o que aconteceu, imagine ele, um jovem.

D – Pode ser, mas é que ele ainda é tão jovem, um meninão... Mas é mesmo, depois que o Davi viu o milagre acontecer com a gente diante dos próprios olhos e ter visto aquelas milhares de pessoas de toda a região, ficarem totalmente saciadas, o Davi vai seguir Jesus onde Ele for, até para Jerusalém, se Ele quiser. Vai bem correr atrás do André ou do Felipe para ver se um deles o adota. Eu também faria o mesmo...

P – Você também seguiria Jesus se fosse gente não é? Somos dois. Mas tem uma coisa muito particular e inusitada dentro de mim, que eu preciso te contar. Não sei explicar o porquê, mas, é como se eu não precisasse mais seguir Jesus. Eu não mais o verei, sei disso, e serei definitivamente consumido assim que chegarmos ao nosso destino, mas Ele permaneceu em mim. Dá pra entender? É assim também com você? Jesus não está mais lá, somente, Ele está aqui.

D – Entendo sim, perfeitamente, mesmo sendo peixe e você pão. A gente não fazia idéia do que ia acontecer, mas, na hora que André apresentou o Davi para Jesus e eles se olharam foi uma cumplicidade e um amor tão grande, que o Davi sossegou, cheio de paz. Jesus o acolheu e abraçou e parecia que tudo tinha parado: só existia Jesus e Davi, Davi e Jesus e mais ninguém.

P – É mesmo. Foi então que André mostrou a oferta que o Davi havia trazido no seu desejo de contribuir para que aquele mar de pessoas, surgidas sei lá de onde, pudessem ser alimentadas e saciadas, e Jesus as aceitou alegremente: os cinco pedaços de pão e os dois peixes. Coitados dos discípulos que acompanhavam Jesus... estavam tão aflitos diante do desafio que Jesus lhes dera: saciar a multidão. O que eles poderiam fazer? Então foi a nossa vez de sermos olhados por Jesus: o Dag, um peixe bem jovem, o Pita, um pão meio imperfeito, e os demais companheiros de aventura.

D – Como você se sentiu quando Jesus o tomou nas mãos?

P – Fala você primeiro. Você falou tão poeticamente sobre o Davi e Jesus que prefiro que você partilhe primeiro...

D – Eu me senti diante de Deus, na Sua presença! Eu, que sou uma criaturinha, me senti vindo de Deus, obra de suas mãos... assim... como se já nos conhecêssemos sem nunca termos sido apresentados.

P – Pois eu que sou produto das mãos de alguém, de uma mulher, mãe do Davi, ainda menor que você, me senti tão valorizado diante do olhar de Jesus que tudo em mim mudou. Concordo com você, Jesus é Deus. Ninguém tem aquele olhar infinito de amor infinito... Se eu não fosse pão, tinha chorado com certeza, chorado como vi o Davi chorar, profundamente tocado, mas, pensando bem, acho que chorei também, como pão. É como se eu tivesse sido elevado e entendido minha dignidade der ser alimento para nutrir as pessoas!

D – Nós presenciamos vários milagres, Pita. Cada um mais incrível que o outro.

P – Bediuk!

D – O primeiro milagre foi a eleição do Davi. Incrível ele ter sido visto, encontrado e escolhido a dedo no meio da multidão por um discípulo de Jesus. A desculpa foi a fome, o lanche, a companhia dos amigos, a multidão... mas o Davi foi pessoalmente escolhido.

P – O segundo milagre foi o encontro de Davi com Jesus. O Davi pensava que era ele quem tinha curiosidade a respeito da pessoa de Jesus, mas quando eles se encontraram após o convite de André, Davi entendeu que era Jesus quem o esperava e o atraía. Que grande verdade! Coisa mais linda de ser sempre lembrada!

D – O terceiro milagre foi conosco: simples criaturas deitadas em um pano depositadas nas mãos de Jesus que ergue o olhar para o Céu e pronuncia a benção: ‘Barukh atah Adonai elokheino melekh haolam hamotsi lehem min haaretz’.

P – Vou falar de novo porque também decorei estas palavras saidas da boca de Jesus. Vou rezar, melhor dizendo, vou dar graças por esta hora em que fomos ofertados por inteiro a Deus que Jesus chamou de Pai... ‘Bendito sejais Senhor, Rei do universo, pelo pão que recebemos da terra’.

D – Pita? Por que você ficou quietinho tanto tempo?

P – Você também ficou mudo...

D – É por causa da emoção muito intensa. É mais que emoção, vem mais de dentro, é a Presença dele, de Jesus que permanece. Eu a sinto em mim!

P – Eu a sinto em mim de tal forma que é como se eu não fosse mais eu, mesmo sendo. Dá pra entender? Eu continuo sendo pão, sendo Pita, mas não sou só isso!

D – Que coisa mais bonita, Pita. E nós dois sendo diferentes nos tornamos iguais, perfeitamente unidos por causa da Presença de Jesus.

P – Não é uma coisa que se explique, nós somos outros permanecendo iguais! Somos um e nos tornamos vários... lembra da quantidade de pães e peixes depois da oração de Jesus?

D – Este é o outro milagre: a gente se multiplicar sem ser destruído, sem acabar. Quanto mais os discípulos nos davam como alimento, mais alimento havia nos cestos! Quantos Pitas! Quantos Dags!

P – E olha que sobrou um bocado! Senão não estaríamos aqui. Não está vendo quantos pães e quantos peixes têm neste cesto? Como pode Dag? Como pode?

D – A gente foi partido, faltam pedaços em nós, fomos parcialmente consumidos, externamente, mas eu continuo inteiro!

P – Inteiro! Eu também!

D – Essa luz que a gente reconhece um no outro é a Presença de Jesus que tomou posse de nós e nos fez alimento para quem estava com fome.

P – Você está falando umas coisas tão bonitas que parece até que aprendeu... que está sendo inspirado pelo Espírito de Deus que Jesus invocou. Eu só sei que enquanto tiver um pedacinho que seja de mim que alimentar alguém que esteja com fome, esta pessoa estará comendo e recebendo Jesus!

D – Por isso sobraram tantos cestos cheios de pão e peixe...

P – Por isso a gente permaneceu vivo para contar a história e continuar levando Jesus às pessoas.

D – E esse milagre não terá fim!

P – Bediuk! Mil vezes bediuk!

D – Gostou da palavra, né? Você é uma figura, meu amigo, mesmo sendo metade vale por dois!

P – Sabe que estou com a maior vontade de cantar? Acho que é de tanto ouvir cantoria a noite inteira. Tanta música linda! Já estava quase raiando o dia quando o povo deu uma descansada depois de juntar tudo que tinha sobrado nos cestos. Nem sei de onde apareceram tantos cestos... Onde você estava também foi assim?

D – Do lado que eu fui parar era criança pra todo lado e muita música e cantoria. Também as mães e as mulheres cantavam alegres vendo tanta fartura e só pararam quando foram vencidas pelo cansaço. Dormirem, exaustas, enroladinhas com os filhos. Fazendo bem as contas nós chegamos com o Davi ontem no princípio da tarde, na esperança de ver Jesus, e ouvi-lo falar, mas Jesus custou a chegar.

P – Quando o milagre da multiplicação aconteceu já estava entardecendo. Depois que os discípulos distribuíram os pães e os peixes eles se afastaram com Jesus e seguiram na direção de Tiberíades, mas, nós ficamos com o povo. Mas a gente 'tava falando era de música...

D – Agora mesmo enquanto a gente conversava e partilhava, eu notei que eles estavam cantando uma das músicas mais bonitas que eu ouvi até hoje que eu acabei decorando. Eu acho que você também aprendeu porque foi cantada a noite inteira por todo mundo.

P – Qual?

D – Shiru, shiru l’Adonai, shir hadash, shiru lo ki ni flaot assah!
(Cantai, cantai ao Senhor um cântico novo! Cantai porque Ele fez maravilhas!)

P – Temos mesmo que cantar Dag, porque não seríamos o que nos tornamos se não tivéssemos sido depositados nas mãos de Jesus.

D – Sabe qual era um dos assuntos conversados entre as mulheres enquanto se fartavam de tanto comer naquele banquete?

P – Parecia um banquete mesmo, quanto mais os discípulos davam, mais tinha, o povo até permaneceu sentado pacientemente esperando a vez... do que elas falavam enquanto assavam os peixes e comiam pão?

D – Dos milagres de Jesus e dos nomes dados a Ele. Cada uma conhecia um caso, tinha um parente, um vizinho que já tinha sido curado por Jesus. Tantas histórias, tantos sinais, e todas falavam unânimes que quem se aproxima dele experimenta um amor tão extraordinário que não dá para ser mais o mesmo. Para elas Jesus é Adonai.

P – Para elas e pra mim! Ele não é somente Adonai, é Adonai ve Elohai, é meu Senhor e meu Deus! Fazer o que Ele fez comigo e com você, nos apresentando a Deus que chamou de Haav, Pai, só mesmo sendo Adonai...

D – Nós estamos chegando, de onde estou posso ver pela gretinha.

P – A gente vai ter que se despedir, Dag. Daqui a pouco é hora de partir o pão novamente e nós seremos consumidos definitivamente, bem do jeito que Jesus quis que fosse.

D – Eu terei sido o peixe mais feliz do mar... e da terra!

P – E eu, o pão mais importante do mundo!

D – ‘Tá ouvindo?

P – Estou... que lindo! E tem um monte de tovs na canção...

D – Pita?

P – Dag?

D – Você fala primeiro, Sr. Pita!

P – Eu só queria agradecer e dizer que te amo...

D – Eu também te amo...não me faz chorar...me dá a sua mão e vamos cantar juntos.
Rodu l’Adonai ki tov! Ki le olan hasdov! Rodu! Rodu l’Adonai ki tov!
(Bendizei ao Senhor porque Ele é bom! Porque sua misericórdia é eterna! Bendizei, bendizei ao Senhor porque Ele é bom!)






Elena Arreguy Sala
Comunidade de Aliança Missionária em Israel
Haifa, 15 de outubro de 2010


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Sof-sof be Israel - Finalmente em Israel

Jantar de boas vindas para a Tatiane Ximenes que fica em Roma um ano, estudando arquitetura, num intercâmbio inter-universidades e, ao mesmo tempo, jantar de bota-fora e de aniversário para mim que viajo para Israel, hoje 23, às 23h depois de três meses na Itália. Somente ontem consegui resolver o que estava bloqueando meu acesso ao blog. Como dizia minha amiga Janice, o problema geralmente está na pecinha sentada na frente do laptop... :-) Da esquerda para a direita: Fabiana, Pe.João, Ana Lúcia, eu com a Clara no colo, Kaline e Tatiane.  Bendito tempo vivido em Roma. Bendita obra de Deus que nunca se cansa de fazer novas todas as coisas. O menu? Lasagna e de sobremesa uma goiabada chegada do Brasil...

Essa é a Giulia, italianinha, irmã da Clara, que é francesinha, e filha do Pedro Junior e da Kaline, missionários da Comunidade de Vida. Fofinha e sorridente, uma delícia de criança essa Giulia. É grande dom de Deus ter crianças numa missão e nesse ponto o Senhor tem sido generoso comigo pois onde vou tem umas fofuras para brincar e conversar.

 Uma das fotos mais preciosas de todo esse tempo na Itália: em  Firenze -Florença. Absolutamente inesquecível! 'Amazzing...' Quem entender que entenda.

Vista de Firenze no entardecer do ponto mais alto da cidade depois de um café reconfortante. É tão linda a cidade, tão perfeita que parece um set de cinema... Amei visitar e conhecer. Tem gosto de quero mais.

O trio mais feliz de turistas que passou 14 horas em Florença até não ter mais pernas para andar: Eran, Ena, Cristiano Pinheiro. Una giornata perfecta, grazie a Dio!

Finalmente conheci o Davi de Michelangelo... sem palavras as
 esculturas dele, todas perfeitas.

Esta semana me despedindo dos amigos e irmãos de Pian Paradiso, missão do Shalom vizinha a Roma, um lugar perfeito e lindo de se viver... ah se eu pudesse... Fátima Lima, eu, Romulo (Doca) segurando o Andre que naquele dia 21 de agosto, fazia um aninho. Atrás Francesco e Marina da Obra Shalom. Tutti buona gente! Vou sentir saudades.

O Andrezinho que tem sorriso tímido mas é dado e também super meigo, vai no colo de qualquer um e a gente não ve esse menino chorar de jeito nenhum.. Mistura perfeita de Renilson e Lorena
O jardim da casa de Pian Paradiso... lindo demais com uma  imagem de Nossa Senhora esperando cada um para conversar. A cadeira debaixo da árvore é bem estratégica. Estou com a Sara uma jovem vocacionada da Comunidade que tem um sorriso lindo como um raio de sol.

Mila, de amarelo, da Comunidade de Aliança que mora na missão de Roma e uma nova amizade muito especial, presente de Deus, com Jamille,de pink, também da CA de Fortaleza mas que tem cadeira cativa nas missões de Roma e de Pian Paradiso porque já viveu aqui como missionária. Depois da convenção dos 30 anos resolveu passar dois meses para ajudar e matar a saudade... A Clarinha no colo, tomou posse da camiseta espalhafatosa e não quis tira-la de jeito nenhum.

Tati, Clarinha e Elena, uma chegando outra se despedindo, todas querendo viver com felicidade a vontade de Deus, recebendo a cada dia o denário que o Senhor quer dar. Foi providencial esse evangelho do dia e o salmo do Bom Pastor, 23. Nada nos faltará, nada nos falta.

Hora de fechar as malas. Shalom!

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Uma grande serva do Espírito Santo!

Esta da foto a quem abraço com tanto carinho é Irmã Trindade Campos, serva do Espírito Santo, uma das primeiras brasileiras religiosas líderes da Renovação Carismática, que tanto marcou a minha vida espiritual e que voltou para a casa do Pai no domingo dia 8 de julho.  A Trinity, como seus muitos amigos e filhos espirituais próximos a chamavam, fez a experiência do batismo no Espírito Santo em 1971 e esteve presente no primeiro Congresso Mundial da RCC em 73 representando o Brasil. Ela era uma memória viva dos primórdios do derramamento do Espírito Santo no nosso país e, junto com Pe.Jonas Abib, Dom Cipriano Mendes e Pe.Edward Dougherty, entre outros, como Doris fundadora da Comunidade Bom Pastor no Rio de Janeiro, foi da liderança da RCC e levou os carismas e jeito novo de amar Jesus e Sua Palavra no Espírito por esse Brasil afora. Lembro-me bem do carinho e do respeito que o Moysés e a Maria Emmir sempre tiveram por ela e de como a Ir.Trindade ficou impressionadíssima quando conheceu a Comunidade Shalom em Fortaleza, ainda nos anos 90. Me lembro de seu comentário: 'vi na Comunidade o frescor, a alegria, a exuberância e a vivência concreta do Evangelho que toda Congregação Religiosa da Igreja sonha viver... até a minha!', e abriu um largo sorriso emoldurado por seus olhos azuis.

Por anos a Trinity viveu no Rio de Janeiro, depois foi para Belo Horizonte e por fim viveu muitos anos em Brasília trabalhando na Rádio Nova Aliança até já idosa e com problemas de saúde mais graves, ser transferida há aproximadamente dois anos para a Casa das Idosas de sua Congregação, a casa de Sant'Anna em Santo Amaro, São Paulo, onde tive a alegria de visita-la por um fim de semana, ano passado, quando de férias no Brasil. Esta foto foi tirada pela enfermeira, no quarto dela, pouco antes de me despedir e ir para o aeroporto. Tínhamos conversado um pouco sobre a vida missionária - e ela sentia enorme alegria e orgulho por sua filhota missionária que vivia em Israel - e sobre o amor de Deus, e a vida de oração, sua mais última paixão, no sentido de querer crescer na vida de oração e intimidade com Jesus, o Amado de sua vida. Lembro-me bem de como descrevia sua dificuldade em ser 'contemplativa' como ela tanto desejava, até entender que seu carisma de vida era mais ativo que místico e que o Senhor lhe pedia somente o amor, a aceitação daquilo que Ele lhe permitia ser e viver, nos limites próprios da idade. E assim ela viveu este último tempo de sua vida,  até o último domingo, com alegria de ser quem era - amada do Pai do Céu sempre repetia - contemplando Deus em si mesma e ao seu redor, no mistério das pequeninas coisas que tecem a malha da vida de todos nós.

'A Trindade foi para o Céu, foi viver seu Pentecostes definitivo, como serva do Espírito Santo que era'. Assim recebi a notícia por email sobre a sua morte, e muito me comovi. Que gratidão senti por esta tão grande mulher de Deus em minha vida! Com ela aprendi a rezar carismaticamente, a rezar por cura e libertação, a deixar-me usar nos dons de serviço do Espírito, línguas, profecia, interpretação, a cantar no Espírito. Que bela voz a Trindade tinha! E como era marcante ve-la cantar no Espírito e levar uma assembléia de oração a fazer o mesmo... Creio que se a Trindade tivesse nascido depois - ela estava com 80 anos - seria da Comunidade Shalom porque poucas vezes vi uma pessoa com tanto carisma com a juventude! No Colégio Imaculado Coração de Maria onde estudei, em 1975, no Méier, Rio de Janeiro, quando ela fundou um dos primeiros grupos de oração do Brasil, o Água Viva que ainda existe, a víamos sempre cercada de jovens, rapazes e moças, às vezes causando um certo incômodo às demais irmãs, mas ela mesma jamais se envergonhava de nossas roupas e jeitos rebeldes... parecia nem notar e simplesmente nos amava e nos levava para Jesus, rezava conosco e perto de nós, fazendo discípulos. Quantas vezes tive oportunidade de viajar com a Trindade e sem qualquer competência prévia rezar junto, fazer junto, servir junto e aprender que o Espírito Santo precisa de servos e não de doutores. É o serviço e o espírito de serviço que pode nos levar a ser doutores um dia se assim o Espírito do Senhor quiser e não o contrário. Jesus mesmo fez discípulos que viviam com Ele e aprendiam com Ele, pela palavra e pela ação e parece que os amigos e as amigas de Jesus, em toda a História, repetem essa didática do Senhor sempre guiados pelo Espírito Santo.

Essa é uma estátua de madeira da capela do Convento da Santíssima Trindade em São Paulo onde a Trinity morava. É Nossa Senhora como Serva do Espírito Santo, a cheia dele, em postura de oração, louvor, de olhos fechados... mais católica e carismática, impossível, e mais modelo de tudo o que a Trindade sempre quiser ser e viver também é difícil achar. Meu sonho era tirar essa foto e jamais tive oportunidade nas visitas anteriores que fiz ao convento nestas décadas de convivência com a Trindade. Que bom que em 2011 deu certo e eu posso agora publicar.

Trindade querida na sua salinha do computador de onde mandava para a sua lista de contatos muitas mensagens que seus fiéis amigos encaminhavam para ela diariamente. Desse jeito, mesmo com toda a limitação visiual, ela mantinha contato com o mundo exterior e mais uma vez falava eloquentemente com a vida, mais do que com palavras, a não desisitirmos nunca diante dos desafios...e sempre em espírito de louvor pois Jesus é o Senhor. Talvez tenha sido essa a oração que mais vezes saiu de seu coração: Jesus é o Senhor! Ela sempre se dizia uma meninona de coração mole, porém tinha uma coragem e uma simplicidade diante de Deus que era virtude e obra de quem se deixou amar e transformar pelo amor de Jesus. 

Eu entrava no taxi na porta do convento para ir para o aeroporto quando pedi essa última foto. Tenho confiança que ela me esperará na porta do Céu quando chegar a minha vez de ir para lá. Confio-me demais à sua intercessão para que os sonhos que há no meu coração de viver plenamente a vontade de Deus se cumpram. Jamais me esquecerei que foi com ela que eu aprendi a confiar mais nas pessoas, sempre, com o olhar de Jesus que sempre acredita, mesmo quando tudo diz que não. Foi dela que recebi um abraço enorme uma vez, grande e rochonchudo de mãe e mulher casta, cheia de Deus, inesquecível, que ao me abraçar disse: te amo incondicionalmente, confio em você... Eu também Trinity, te amo incondicionalmente! Obrigada por tudo! Reze por mim, eu me confio à sua intercessão. Amém.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Evangelizando na Piazza di Spagna

Depois de um mês de sumiço por conta de problemas tecnológicos - tem coisas que só errando a gente aprende - e de um ritmo de vida muito intenso, novo e quente nesta Roma que mais parece Quixadá, no Ceará, às três da tarde, eu volto a escrever no blog. Estava com saudade. Sou eu quem sente mais falta da partilha com os amigos e leitores, da vida missionária, sempre rica e cheia de novidades. Não vou tirar o atraso porque seria impossível mas vou tentar escrever com mais frequência.

Só sei que hoje é aniversário da minha mãe, D.Glória, que vive no Rio de Janeiro e com quem conversava há poucos minutos até a ligação cair, e semana passada foi aniversário de 30 da Comunidade Shalom. Em homenagem a ela que foi a primeira pessoa a me ensinar a amar e conhecer Jesus, e à Comunidade Shalom onde vivo a vida de consagração e de chamado à santidade como alma esposa, leiga no mundo sem ser dele, ofereço este post e estas fotos de um dos dias mais especiais vividos em Roma. 

Era sábado à tarde e nós como Comunidade Shalom missão de Roma, como consagrados da Comunidade de Vida e da Aliança, nos unimos a pessoas de outros movimentos da Igreja na igreja que fica atrás da Piazza di Spagna chamada Trinità dei Monti, e nos preparamos para evangelizar. Ouve uma breve orientação de como deveria ser a aproximação e o que deve ser dito e o que não deve ser dito, e a confirmação de que todos com quem conversássemos poderiam ser convidados a participar da oração de vésperas com a Fraternidade de Monges que cuidam da paróquia, seguida de um lanche grátis para todos nos jardins da paróquia. Cada evangelizador recebeu uma bênção de um sacerdote presente e saimos para a nossa hora e meia de evangelização em uma das praças mais famosas de Roma que é point turístico e também point da juventude romana. Era a primeira vez que eu evangelizava via mímica e foi uma experiência sensacional porque lida com o teatro, com a curiosidade, com a leveza de quem faz coisa importante através da arte. Éramos cinco mas na foto acima só estamos quatro, da esquerda para a direita, Fabiana (CV), Maria (CA), Elena (CA) e Marco (Postulante romano da CA). A Maria com mais experiência guiava a brincadeira evangelizadora e de quem deveríamos nos aproximar. Centenas de pessoas sentadas na escadaria, como se ve na foto abaixo, turistas do mundo todo, mas demos prioridade aos de lingua italiana porque é possível se dar uma orientação e um acompanhamento mais eficaz. Como apoio havia três irmãos que depois da nossa aproximação mímica e lúdica vinham dizer quem nós éramos e davam de  presentinho do versículo bíblico enroladinho num papel que a pessoa podia escolher entre dezenas. Uma breve palavra sobre o amor de Deus a partir do texto bíblico escolhido - sempre promessas do novo testamento, dos salmos ou dos profetas - e o convite para a oração de vésperas, ou uma palavra de aconselhamento na igreja caso quisesse e um lanchinho free no final de tudo. 

Me marcaram duas experiências: duas muçulmanas londrinas, mãe e filha, que vieram ao nosso encontro para fotografar e no fim entraram numa igreja católica pela primeira vez na vida e participaram de tudo, mesmo sem entender quase nada. Mas quem disse que a alma delas não entendeu? Pois a alma sempre reconhece onde há a Verdade, onde há a Palavra de Deus, onde Jesus está... muito lindo porque era aniversário da jovem e pudemos cantar para ela na hora do lanchinho. Elas expressaram várias vezes a alegria e a surpresa daquele encontro vespertino.

A segunda experiência foi com um jovem italiano meio taciturno, desconfiado, que custou a desarmar-se e a sorrir mas que acabou acolhendo o que tínhamos a dizer. Porém, na hora de pegar um papelzinho com a Palavra de Deus disse uma coisa surpreendente: eu acho que não sou digno porque sou católico mas não praticante. E esse ato de humildade me tocou profundamente o coração: ele se reconhecia indigno de receber a Palavra do Senhor e disse: vou levar então para a minha namorada. Não sei bem se ele disse isso por culpa ou por arrependimento, isso só Deus sabe medir, porém para mim foi uma grande chamada. Nós porém, insistimos e falamos do amor e do perdão do Senhor e pedimos que ele pegasse não somente para a namorada para também para ele e ele aceitou e guardou na carteira. Ainda hoje eu me lembro dele e peço ao Espírito Santo que faça brotar em sua alma essa semente de vida...

Na foto abaixo a praça como nós a deixamos quando acabou a hora da evangelização propriamente dita, tendo a igreja da Trinità dei Monti ao fundo e a esperança que chegue logo setembro quando este trabalho mensal de evangelização retoma suas atividades porque com o calor de 40 graus e o abafamento que se tem em Roma no verão não há evangelização à tarde que resista, tinha que trocar de horário, mas isso já não depende de mim.


sexta-feira, 15 de junho de 2012

Corpus Domini, Cuore Domini oggi e sempre

Quantos dias se passaram... quanta dificuldade para encontrar um novo ritmo de vida no meio de tantas novas realidades e irmãos... facilmente vejo o tempo correr entre os dedos, sem desperdiça-lo, porém. São novos encontros e novas vozes, outras pessoas a serem conhecidas e amadas por mim em minha enorme pobreza. Como ainda é preciso crescer no amor verdadeiro e desinteressado...só deixando Jesus fazer. Enfim, o que mais importa é que tenho conseguido rezar com paz e sincera necessidade minhas duas horas diárias antes de ir para a aula na bela capela da casa comunitária, a casa feminina, da missão de Roma, que fica no jardim da Casa Mãe das Ursulinas em Roma. Um pedaço considerável de verde, de pássaros e árvores, muitas florezinhas no coração de um bairro elegantge romano, o Nomentano, um verdadeiro refúgio. Depois do café vou rezar na capela e da janela contemplo um gramado enorme e fico me distraindo com os passarinhos que vem cantar laudes e os salmos comigo. Assim que termino saio para a aula e nesse movimento levo uma hora para ir e outra para voltar, o que eu acho ótimo porque me permite caminhar, andar de ônibus - eu não sobreviveria ficar sem andar de ônibus depois de quatro anos no sobe e desce entre Haifa e Isifya - rezar meu terço e ver e ouvir as pessoas em bom italiano. Assim que desço do ponto do ônibus passo nessa capela de S.Maurício, se não me engano este é o nome, que tem o Santíssimo Sacramento exposto ao público, e cumprimento, adoro, fico um pouquinho com Jesus. Tirei essa foto para todo mundo ver e se lembrar de fazer o mesmo, todas as vezes que tiverem oportunidade. Adorar Jesus vivo no Santíssimo, Ele que é o coração do mundo, a alma da humanidade, o sentido de toda a vida, a fonte de todo amor. Quem precisa é só chegar perto e deixar-se amar pois Ele sempre está lá e nos espera, nos espera... Bom é lembrar que se semana passada tivemos a festa de Corpus Christi, amanhã é a festa do Sagrado Coração de Jesus. Seja o Corpo, seja o Coração, não falamos de partes mas de Deus inteiro, todo amor, todo Homem, Jesus.

Com Cristiano Pinheiro e Ana Lúcia a espera da missa de Corpus Christi que seria presidida pelo Santo Padre nas escadarias da Basílica de San Giovanne Laterano, onde a Comunidade teve várias celebrações há um mês atrás.

Parte da turma da Obra e da missão de Roma que estava presente. Ao fundo a Basílica. Eram sete da noite e parecia cinco porque com o verão anoitece quase as 9 da noite, com isso ninguém consegue dormir cedo.

Saindo da frente da Basílica no fim da missa para nos unirmos à multidão que se uniria ao Santo Padre e aos milhares de religiosos, padres e freiras, povo de Deus em procissão pelas ruas de Roma até a Basílica de Santa Maria Maggiore.

Na procissão vem primeiro os leigos e algumas associações como Filhas de Maria, Grupos de Oração de S.Pe.Pio, muita gente na procissão e um tanto ainda maior do lado de fora, esperando o Papa passar.

Para quem ama o Pe.Pio e pede a sua intercessão. Como ele é famoso por aqui, impressionante! Que ele que nos ajude do Céu a sermos tudo o que Jesus tem preparado para nós como batizados e consagrados Shalom.

Depois dos leigos e das associações leigas, as religiosas. Uma quantidade enorme de hábitos e rostos de todas as raças e idades. Lindas!

Primeiro os seminaristas e então os padres, graças a Deus muitos padres e a maioria rezando e cantando com tanta piedade que foi fácil ficar emocionada e interceder por eles agradecendo pelo dom que eles são.

Depois vieram os bispos e os cardeais. Vimos o padre Daniel Ange que parou em frente a turma do Shalom e reconhecemos alguns cardeais.

Todos os celulares em punho e as máquinas fotográficas para receber o Santíssimo Sacramento e o Santo Padre, também ele sacramento vivo de Jesus no meio de nós. Eu já tinha visto esta procissão e missa na televisão mas participar dela ao vivo foi um grande presente de Deus. Fiquei muito emocionada e as lágrimas e o louvor me transbordavam livres do coração pelo amor que tenho à Igreja Católica e pelo que ela é de Bem para o mundo e para todos os homens, tudo dom e graça do Pai.

O carro se aproximando e Jesus Eucarístico nele adorado pelo Santo Padre publicamente. Como não querer fazer o mesmo? A homilia dele nesta missa fez uma síntese fabulosa, didática, inequívoca, sábia e providencial, unindo e explicando os dois mistérios que não se contrapõe mas se complementam: a celebração eucarística e a adoração ao Santíssimo Sacramento. O Papa explicou onde está a interpretação equivocada que se fez depois do Concílio Vaticano II separando estas duas realidades e com unção e clarezas do Espírito nos mostrou porque e como fazer. Vale a pena buscar, ler, estudar e viver o que ele nos ensinou.

Só mais de perto mesmo a foto não sendo muito boa. Nós te adoramos Senhor Jesus no Santíssimo Sacramento do altar! Que tudo o que existe em nós bendiga o teu Santo Nome como diz o salmista.

Acabando de passar por nós. A partir desse ponto a multidão se mexe e segue cantando. Nas janelas as pessoas saem e colocam toalhas e flores coisa mais linda. Milhares de fotos, milhares de turistas, Deus permita, milhares de corações se convertendo e sentindo saudade de Deus, de Jesus...

Vendo mais de longe e o povo caminhando. Fiquei impressionada com a quantidade de pessoas, adultos, muitos homens, famílias inteiras, carrinhos de bebê em plena quinta-feira, depois de um dia de trabalho. Jesus é ainda amado e adorado por muitos e muitos...

Virando uma esquina já na direação do fim da procissão.

Só uma brincadeira para o Cristiano Pinheiro como um recado de Deus: frase deixada na porta de uma das igrejas que passamos no caminho. Adora o Senhor e caminha com Ele. Serve para o Cristiano e para todos nós :-).

No fim da procissão em frente a Basílica de Santa Maria Maggiore onde houve a bênção do Santíssimo Santíssimo dada em latim - será que vale mais? - pelo Santo Padre. A grande maioria das pessoas se ajoelhou no meio da rua. Pense numa emoção! Depois a multidão se dispersou e voltamos para casa de ônibus. Já era mais de dez da noite. No meio da multidão reconheci o Pe.Giovanni, carmelita idoso que mora no Stella Maris em Haifa e que estava em Roma sei lá porque, mas ele não me viu. Mas uma coisa é verdade: Jesus me viu e viu a cada um que esteve lá e no mundo todo para adora-lo, para agradecere pelo dom da Eucaristia, pelo dom do Espírito que a torna real e Jesus presente, pelo dom da fé católica que nos faz viver desse e para esse mistério até sermos completamente transfigurados Nele...

terça-feira, 5 de junho de 2012

Fontana di Trevi em plena terça-feira!

Pense num calor e numa felicidade de rever a Fontana di Trevi depois de tantos anos em plena terça-feira, depois da aula. Vontade de mergulhar nessa água fresquinha, transparente. A Fontada fica bem pertinho do Instituto Dante Alighieri mas eu não sabia, mas como tinha combinado de encontrar o Rômulo, um irmão e amigo de Comunidade, da Comunidade de Vida, que mora em Civita Castelana, cidade e missão vizinha, ele me levou até lá. Tiramos essa ótima foto e fomos tomar sorvete, o primeiro de uma série, espero eu, na terra do melhor sorvete do mundo. O bom é que com 2 euros você compra 3 bolas enormes de sorvete! Eu tenho é que tomar cuidado com o pão, a manteiga e o sorvete que aqui são igual aquela música do Shalom que eu nem gosto tanto, mas que diz assim: 'mais que demais, demais, demais...'. Bendito seja Deus que nos proporciona tantos mimos no meio da vida e mais, nos dá a graça de percebê-los pois sem a Sua ajuda não vemos é nada nem o azul do céu que nos cobre a cada dia com tanta gratuidade... Acho que o maior mimo que Deus nos dá na vida são os amigos e as amigas e quando eles ainda são irmãos de sangue ou de vida fraterna a dose de gratidão é ainda maior. Foi ótimo sentar com o Rômulo e conversarmos um pouco até seguirmos cada um para a sua casa. Interessante porque eu já sei bem direitinho quais ônibus pegar, onde descer e o próximo passo é na sexta-feira depois da aula seguir de trem para Civita para visitar os irmãos de lá, se Deus quiser.
 
 Rômulo e Ena na Fontana de Trevi em Roma. Lindo dia! Que grande graça a da amizade!

Depois da Fontana seguimos até a Piazza di Spagna que tem uma das escadarias mais famosas do mundo onde a juventude romana e do mundo todo se reune às noites e nos fins de semana. É ponto turístico de janeiro a janeiro e a gente ve rostos e ouve vozes do mundo inteiro. O que tem mais me chamado a atenção é a quantidade de árabes e chineses vivendo e passeando em Roma. De vez em quando a gente cruza com brasileiros também. De lá seguimos a pé até a Piazza del Popolo que é cercada por 4 igrejas mas que eu não me lembrava de ter visitado alguma vez nas minhas vindas anteriores à Roma. Esqueci de fotografar. De lá até a estação de trem e do metrô foi um pulo, um abraço de despedida e um correr para chegar em casa à tempo da missa. Graças a Deus deu certo, depois foi o jantar e agora rapidamente escrevo no blog para fazer meu dever de casa - exercício de verbos - para amanhã de manhã. A domani a tutti! Dio chi è buono vi benedica. Shalom!