quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Balanço sobre a experiência missionária - valeu a pena?

Nunca deixei de pensar no blog e de escrever quase que diariamente alguma coisa para os leitores e para mim mesma, como testemunho e partilha. Só que a escrita nunca se concretizou. Permaneceu em pensamento e em desejo.

 Talvez agora seja tempo de voltar a escrever porque estando mais assentada, faço uma nova experiência: ser missionária em minha terra natal, em pleno Rio de Janeiro! Como é ser shalom na língua portuguesa e entre os de casa e os cariocas?

  É tempo novo, é tempo de desafio e de grande bem. É sempre tempo de aprender e de querer abraçar a vontade de Deus que paternalmente tudo dispõe para a minha felicidade. É tempo de amar e de aprender a amar amando Aquele que me amou primeiro e que vem, sempre vem. 

Antes de começar, porém qualquer partilha em terras do Brasil, segue um artigo onde partilho sobre os cinco anos vividos em missão, talvez os mais felizes da minha vida, com certeza os mais intensos. 

Oferece-o a quem sempre me acompanhou com amizade e oração, pela internet. É pra você, de coração! 
Shalom!


A Arte de Ser Missionária

Quando me pediram que escrevesse este testemunho e fizesse uma partilha sobre a missa experiência missionária como Comunidade de Aliança, foi esse o título que me veio à mente como o adequado para o artigo. Missão como arte, obra de arte, obra de Deus e sua graça com G maiúsculo unida ao meu sim pequeno e fundamental de cada dia, e arte como aventura, como risco e desejo de descoberta, de ir além, de alegria e jovialidade, de dar para receber e experimentar a radicalidade e concretude da Palavra de Deus vivida no carisma e na estrutura da Comunidade Shalom.  Creio que vivi estas duas dimensões da arte missionária e que para o resto da vida poderei saborear o muito que Deus fez como Artista em minha vida e através de mim.

Na minha história de vida, muito antes de conhecer a Comunidade Shalom, eu já queria ser missionária. Sonhava em ir para a China e quando entrei para a faculdade de História escrevi para Angola querendo ser missionária e professora no país. Quase matei meu pai do coração por causa da guerra civil que acontecia por lá. Acabou não dando certo mas já era uma graça do Espírito Santo dentro da minha alma. Ele mesmo acabaria me amadurecendo para no tempo certo poder me enviar em missão fazendo parte do Corpo de Cristo que se chama Comunidade Católica Shalom. Passei quatro anos em Israel na missão de Haifa e Isifya e depois um ano em Roma, em fase de transição até voltar para o Brasil, para minha cidade natal, o Rio de Janeiro, onde cheguei para a Jornada Mundial da Juventude. Neste tempo em Roma tive a graça de poder contribuir por três meses para que a missão de Cambridge-Boston, nos EUA, pudesse dar um passo além e se firmasse. Realmente foram anos como andarilha de ‘asas’ porque só se viaja de avião hoje em dia. À pé, que eu saiba, só quem vai para Santiago de Compostela na Espanha...

Creio ser importante lembrar que essa graça de missionariedade não é algo extraordinário dado à Comunidade Shalom e a alguns escolhidos, com teria acontecido comigo. Não. É o contrário, é algo fundamentalmente ordinário, que faz parte constitutiva da natureza do ser Igreja assim como são os sacramentos, a Palavra de Deus, a vida no Espírito... A Igreja existe para ser missionária está escrito com todas as letras do Decreto Ad Gentes do Papa Paulo VI de dezembro de 1965, escrito logo após a conclusão do Concílio Vaticano II! Leiamos o  parágrafo: “A Igreja peregrina é por sua natureza missionária. Pois ela se origina da missão do Filho e da missão do Espírito Santo, segundo o desígnio de Deus Pai” (AG 2). E é interessante porque se a missionariedade está na natureza da Igreja ela é também o seu fim, a sua meta maior. E isso fica atestado pelo Catecismo quando ele diz: “e o fim último da missão da Igreja não é outro senão fazer os homens participarem da comunhão que existe entre o Pai e o Filho no seu Espírito de amor” (CIC parag. 850). Como a Igreja é o Corpo de Cristo feito por pessoas, ser missionário faz parte da natureza das pessoas que pertencem a Jesus. Não é algo a ser recebido de fora mas uma realidade que já existe, é um presente a ser acolhido dentro do coração. Já está lá.

É maravilhoso escrever este texto há somente um mês de distancia da presença do Papa Francisco em terras cariocas, e lembrar de suas palavras inflamando os jovens e todos os milhões de seus filhos espirituais, a viverem o ide e evangelizai, ide sem medo, ide e testemunhai Jesus Cristo, ide aos que sofrem e estão nas periferias da existência. Como essa imagem é forte! Quantos de nós já não esteve ou já se sentiu na periferia da vida e conhece a força da misericórdia do Senhor que não se cansa de perdoar e de amar e por isso pode estender a mão através de alguém e dizer: vem por esse caminho, vem comigo, é possível mudança e vida nova, com Jesus tudo é possível.  É dar de graça o que de graça recebemos. É a partir da experiência pessoal e comunitária fazer multiplicar a gratuidade. E pensando bem: existe frase do Evangelho mais repetida do que essa, dar de graça o que de graça recebemos, nos lábios do nosso irmão e Fundador Moysés? Duvido...

Trabalhei quatro anos como secretária do arcebispo católico-melquita da Galiléia, D.Elias Chacour, dando assessoria em sua correspondência em inglês. Isso prejudicou um pouco o meu aprendizado de um outro idioma local fosse o árabe ou o hebraico, já que eu me comunicava com ele todo o tempo em inglês. Estudei um pouco o hebraico e sonho ainda em aprofundar o conhecimento dessa língua bíblica tão bela e sonora, criada para expressar os mistérios de Adonai... Enfim, a vida missionária é tão intensa e cheia de desafios que é melhor matar um touro por vez para viver a docilidade e deixar Deus guiar e fazer a obra Dele, muito mais do que fazer a obra que a gente imagina. Devemos até planejar mas quem dá a palavra final é Deus.

Um dos conselhos mais importantes que recebi de um virtuoso e sábio padre jesuíta – uma verdadeira palavra de sabedoria – que me ajudou bastante a enfrentar e viver os primeiros seis meses que são sem dúvida os mais difíceis da vida missionária, foi manter o coração livre sem qualquer forma de julgamento. Ou seja, diante de cada realidade, irmão, aprendizado, desafio, relacionamento, medo, insegurança, saudade não emitir julgamento negativo, simplesmente aceitar, calar, observar e deixar perdido no coração de Deus. Elevar a Ele tudo e esperar. Esperar e observar. Manter um espírito de serviço e de observação. Eu tentei sinceramente viver assim e isso me deu muita liberdade interior diante das dinâmicas da Comunidade de Vida que eram novas para mim, e da vida de cada irmão e irmã que também eram novos para mim. Eu também era nova para mim mesma, vivendo tantas descobertas! Não existe possibilidade de conhecimento, amizade e fraternidade sem se gastar tempo, portanto, que ao menos os seis primeiros meses sejam vividos em consciente opção de não-julgamento inclusive contra si mesmo. Essa sabedoria ajuda muito porque diante de tantas novidades, principalmente nas missões do exterior, a tendência acaba sendo a comparação com o Brasil e principalmente com Fortaleza, com a Casa Mãe como um mecanismo de defesa e aí as frustrações, as tensões são grandes e muitas vezes desnecessárias. Digo isso porque aprendi que o processo de inculturação é lento, sofrido, e é processual, é entrar em outro jeito de pensar a vida e até Deus. É a experiência palpável da morte do grão para que o grão novo do carisma shalom possa ser plantado para nascer do jeito que o Pai quer e não do jeito que o eu de cada um quer...

Além desse aspecto que me ajudou a superar os primeiros tempos e vivê-los mais saudavelmente mesmo que com falhas, um outro importantíssimo foi a certeza de ter feito um caminho de diálogo, oração e escuta partilhada com minha formadora pessoal e formadora comunitária. Essa segurança do discernimento feito em conjunto não tira a responsabilidade do meu sim pessoal e passo missionário com todas as suas consequências porém, me assegura um caminho comunitário de pertença, de comunhão vocacional e de ação da Graça de Deus. Sou eu que abraço o chamado do Senhor à missão mas o faço como parte de um Corpo que me sustenta e que também é sustentado por mim. Esse caminho de discernimento é fundamental para os momentos de crise, de dificuldade de relacionamento, de saudade, tensão, medos e provas porque são sinais concretos e externos vividos no tempo, pessoais, que não dependem das oscilações das emoções. A minha experiência de discernimento foi longa. A princípio eu queria ir para a missão de Londres por causa do meu trabalho de toda uma vida ligada à língua inglesa mas, como havia em mim ainda muita ansiedade e falta de confiança nos tempos e providência de Deus pessoal para mim, chegamos à conclusão que era melhor esperar e não escrever para o Conselho Geral. Assim, dando um passo na fé e na verdade, aceitando que eu precisava amadurecer meu chamado missionário e não fazer dele um caminho de fuga dos problemas do presente, esperei mais um ano. Só então escrevi para o Conselho Geral me oferecendo para ser missionária onde o Senhor, a Igreja, e a Comunidade precisassem de mim. Não pedi ou escolhi nada. Um irmão até brincou comigo e disse: “Você está doida? E se mandarem você novamente para Propriá, para um interior bem pobre e difícil?” Eu respondi: “Talvez a princípio eu até ‘brigue’ com Jesus, mas Ele sabe do que eu preciso, eu com certeza vou acabar aceitando o que Ele me der e vou ser feliz fazendo a vontade dele.” Foi nesse mesmo espírito que recebi a proposta de ir para Israel. Naquele momento respondi à minha formadora comunitária, a querida Adalgisa: “Aceito sim, o Senhor está me dando o melhor que Ele tem”. Essa certeza de um caminho de discernimento e de receber do Senhor o melhor foi fundamental para trilhar meu caminho de perspectiva de fé sobre a vida missionária. Não foram poucos os desafios e as dores e me lembro bem que na época do acidente de carro que mudou a minha vida missionária e me fez ficar mais dois anos em Israel, foi essa mesma certeza que o Senhor tinha me dado o melhor, mesmo que isso implicasse em uma grande obra de purificação e pobreza, de sofrimento e humilhação, que me sustentou. Portanto, sou profundamente grata pelo caminho de formação pessoal e pela proteção da intercessão que temos na pessoa do formador comunitária, que nos protege tanto das pressas quanto das lerdezas, dos auto-enganos e do isolamento. A formação pessoal e comunitária são com frequência canais da misericórdia de Deus e disso eu sou testemunha.

Deus me deu o melhor entre tantas razões porque me fez viver na Terra Santa, em Israel onde pude conviver, amar e servir mesmo que muito limitadamente tanto a árabes quanto a judeus. Pude conhecer a Igreja Mãe de toda a Igreja que é a comunidade cristã nascida em Jerusalém que de lá partiu para Roma e a seguir para o mundo. Pude conhecer os lugares santos e as pedras vivas que mantêm a Igreja viva e dão sentido aos lugares santos.  Não há missão mais importante no mundo – me perdoem todas as demais missões – mas foi aqui – ou lá – que tudo nasceu! Ainda bem que o Papa Bento XVI disse exatamente isso em Jerusalém, em maio de 2009. Foi uma grande graça poder olhar a Igreja e o mundo sob a perspectiva oriental de ver o mundo e a fé, a Palavra de Deus, a revelação de Deus sobre si mesmo, e a salvação da Humanidade. Sinceramente creio que todo Católico e Cristão deveria ter como meta na vida fazer uma peregrinação à Terra Santa assim como todo muçulmano ao menos uma vez na vida deve ir à Meca, a cidade santa para eles. Nunca mais se é o mesmo quando se reza em Nazaré, Belém ou Jerusalém, quando se conhece a Galiléia e Jericó, quando se reza no Monte Carmelo onde viveu o profeta Elias, o profeta do Amor Esponsal, se molha os pés no lago de Tiberíades ou se adora o Senhor no Santo Sepulcro...

Não sei como terminar esse artigo. Teria tanto a contar, tanto a partilhar sobre a vida comunitária que me formou e me ensinou tanto a amar. Talvez outros artigos virão e com certeza outros missionários darão seu testemunho. Eu só sei que o convívio intenso com a Comunidade de Vida e com outros membros da Comunidade de Aliança vendo a Obra nascer me fez ver a intensidade e a força de um carisma capaz de atrair todas as culturas. Também com os irmãos e a irmãs sofri e amei tantas vezes com um sentimento concreto de família e de verdadeira fraternidade. Quando se é missionário os laços verdadeiramente se estreitam porque precisamos de fato uns dos outros e muitas suscetibilidades e coisinhas que trazemos de nossa educação ou má educação caem por terra e o perdão se encarna e a gente amadurece. Na missão rezei muito e também me diverti um bocado. Aprendi a esperar e a morrer um pouco mais para mim mesma. Aprendi vendo a obra de Deus na vida dos irmãos – quem não se lembra do nascimento da Silvinha com 6 meses de vida? – e aprendi também que algumas realidades e sofrimentos continuam sem resposta e que entram na dimensão do mistério da liberdade da vida de cada um que só tem resposta no mistério da Cruz de Jesus. Um dia terão sentido mesmo que esse dia seja na eternidade. Na missão o Senhor fez em mim uma obra profunda de libertação e auto-conhecimento, curando feridas e dependências antigas, dando-me um sentido de valor e amor que eu desconhecia. Sei que ser cristão, católico e shalom é viver de amor para o amor. Simples assim. Simples e longo. Do tamanho da vida de cada um. Na missão eu aprendi a evangelizar e a rezar mais ainda pelas pessoas, eu vi a fé mover montanhas – quem não se lembra do primeiro Halleluya em árabe e a pobre aqui tentando fazer o personagem Danko no musical o ‘Canto das Írias’? Na missão eu vi jovens árabes rebeldes serem batizados no Espírito e também vi judeus pedirem o sacramento do batismo. Tanta, tanta graça, tanta vida em abundância. Tanta alegria, riso, koinonias, provas que pareciam intransponíveis e providências surpreendentes da parte de Deus. Perdão pela imagem simplória mas a vida missionária é tão intensa que até parece aqueles sucos em pó, concentrados, que com um saquinho fazem litros e litros de suco matando a sede de muitos. A gente até perde a conta. Quem pode medir o que Deus faz através de uma vida missionária ofertada por amor ao Evangelho?


E falando em sede eu queria terminar contando uma experiência, um insight que talvez ilustre como entendo a vida missionária como Comunidade de Aliança. Um vez estava intercedendo na capela da casa comunitária em Haifa, pelo Sínodo das Igrejas do Oriente, quando me veio ao coração ‘um entendimento’, uma luzinha com relação ao relato dos evangelistas sobre a multiplicação dos pães: quando nós nos dispomos a ser missionários como CA – e que Deus faça crescer a generosidade de todos e  muitos outros e outras partam em missão – nós somos como o rapazinho descoberto por S.André que dá tudo para Jesus fazer o milagre. Dá seus 5 pães e 2 peixes, fica sem nada. Quando vivemos, porém a missão e ela se encarna, somos nós que nos tornamos pão e peixe para as pessoas, nos tornamos alimento, canal e vamos sendo consumidos e desgastados para que Jesus seja experimentado, conhecido e amado... São duas etapas de um chamado de Deus. Isso até virou um conto, que um dia, quem sabe será contado e publicado, que se chama ‘Dag & Pita’, mas isso é outro assunto. Hoje quero agradecer ao Senhor, à Comunidade e aos irmãos e irmãs com quem convivi e a quem amo para sempre, a graça da missão. Israel estará para sempre em meu coração. Eu que vivi toda a minha vida consagrada como missionária (consagrei-me em março de 2008 e parti para Israel em junho do mesmo ano) sou chamada agora a viver a missionariedade em minha terra natal, o Rio de Janeiro até segunda ordem divina. É novo de Deus. Abraço-o de coração e conto para sempre com a primazia da Sua Graça para que eu possa viver fielmente o chamado de protagonismo como Comunidade de Aliança, encontrando o meu lugar e fazendo a vontade de Deus. Quero contar com a oração de todos.

2 comentários:

Unknown disse...

Que Deus continue a abençoando. Levando-a por 0nde Ele necessitar, pois até hoje tenho em mim o rotinho de uma jovem alwgre e cheia do Espirito Santo, que veio trazer pra nós uma força renovada, mostrando como Deus pode nos usar quando O aceitamos. Um beijo, e continue nos presenteando com seu blog

Raiane Brito disse...

Elena, agradeço a Deus por sua oferta de vida minha irmã.Que Deus te sustente a cada dia.Shalom!