segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Sábado de Carnaval

Era sábado de Carnaval se o calendário fosse brasileiro e mais um simples shabat, para Israel. Voltávamos para casa. Estou ainda sobre o forte impacto do acidente que aconteceu conosco sábado passado, por volta das 21h quando entrávamos em Isifya. Mas vou contar por partes, acho que preciso falar... hoje já é segunda-feira e ainda estamos recebendo visitas de condolências...vamos ao que aconteceu.
Voltávamos de Haifa depois de um dia muito extenuante de mudança do centro de evangelização para outra casa, com todos os imprevistos e pequenos revezes que sempre acontecem para nos fazer crescer na paciência, na fé e na experiência fraterna. Éramos seis (este é título de um livro trágico lido na minha adolescência) e estávamos muito cansados mas bem humorados, como graças a Deus, é a tônica da nossa casa comunitária, e decidimos parar no supermercado rapidamente. No dia seguinte teríamos um dia de Formação junto com a casa de Nazaré e faltavam os últimos itens que nos cabia levar para o lanche comunitário.

Pela manhã descemos todos para ajudar na mudança em Haifa mas eu voltara na hora do almoço com Lorena porque participaríamos da festa de 100 anos da Embutros, senhora muito querida do asilo em Isifya. Lá estavam Viviane e Kézia. O almoço foi festivo, emotivo, com bom número de parentes, comidinha deliciosa, nada sofisticada, como é a tônica da cultura. A alegria e o orgulho dos filhos, dois senhores de quase 80 anos, era contagiante pela vida da mãe, viúva muito jovem que, como costureira, educara os três filhos homens primorosamente. Um deles não estava presente porque mora no Canadá e por conta da nevasca não conseguiria vir para Israel para a festa, mas telefonou na hora do almoço... o que me encantou é que a festa verdadeiramente girou em torno da mãe e não a cansou ou foi longa demais. Muitas fotos, algumas músicas, bolo de chocolate. Lorena substituiu a Viviane no asilo no horário da tarde.

Após o almoço desci de carro para ajudar da segunda fase da mudança, fui para a Pastoral Hebraica onde me encontrei com a Viviane que descera de carona um pouco mais tarde com os parentes da Embutros, e participamos na missa das 18h. Tomamos nosso chá após a missa, como de costume, conversando com o Pe.Roman, o Victor, a Myriam e outras pessoas que participam da Pastoral e, por volta das 20h no mesmo bat horário de todos os sábados, voltamos para casa. Eu estava muito atenta e Viviane estava ao meu lado. Sei que estava atenta por causa do cansaço o que me deixa duplamente concentrada . Atrás estavam Yara e Tennesse e no último banco Silvânia e Leandro.
Já na frente do supermercado cruzei a pista para esquerda para entrar no estacionamento quando aconteceu a tragédia. Uma motocicleta que vinha na direção contrária em vez de seguir em frente seguindo sua rota, quis me dar um olé e vencer o próprio limite de velocidade, me ultrapassando pela frente, e não conseguiu. Mesmo eu estando totalmente fora da pista o motorista da moto, em altíssima velocidade acendeu o farol alto, acelerou e não conseguiu fazer sua manobra arriscada e suicida. Bateu violentamente na altura do espelho acima da roda dianteira direita, na coluna do carro, e morreu na hora, sendo jogado longe, ele e a moto, para trás do nosso carro. Com o impacto o carro parou, os vidros da frente se espatifaram e eu e a Viviane fomos cobertas de vidro. Ela estava meio de lado e não viu que a moto se aproximava. Sofreu o impacto, um corte mais profundo na testa o que lhe cobriu o rosto de sangue, mas graças a Deus nada mais sério. Ela está com alguns hematomas no corpo, os olhos e o lado direito do rosto inchados, com algumas escoriações, mas internamente nada foi afetado e nem pontos precisou levar. Ficará esta semana de repouso para que o organismo se recupere do fortíssimo impacto. Os demais estão todos bem, sem qualquer escoriação. Todos foram protegidos pelos cintos de segurança e o encosto da cabeça que amortece o impacto da nuca. As dores sentidas no corpo domingo e segunda tem mais a ver com o transporte da mudança do que com o acidente em si.
Eu fiquei todo o tempo dentro do carro, muitíssimo assustada, acudindo a Viviane e rezando, chorando, pedindo ao Senhor que salvasse o jovem... mas ele já estava morto. Não sei muito o que dizer. Estou sofrendo agudamente com a morte deste rapaz cuja direção suicida conhecida de todos da cidade e comentada abertamente, o levou à morte. Entretando isso não diminiu meu sofrimento por ele ter morrido num acidente onde eu dirigia, mesmo objetivamente falando eu não ser culpada ou responsável pela imperícia dele. Edmond Rohana tinha 23 anos, era de família cristã e seus piedosos avós, paroquianos dos mais fiéis.
Passei o domingo na Polícia dando longas horas de depoimento. Lorena me acompanhava, mais o Administrador da Cúria, Ossama. O nosso bispo, Elias Chacour, não somente veio à Isifya no sábado a noite, ver cada um dos irmãos que foi trazido para casa pelos vizinhos e amigos que em minutos chegaram ao local do acidente, como também foi ao hospital ver a mim e à Viviane. Ele nos prestou paternal apoio e sua presença fez muita diferença. Fomos levadas de ambulância e atendidas por excepcionais para-médicos. Minha pressão deu uma subida violenta, a dor de cabeça também foi forte mas fui medicada e dormi em casa. Tentei dormir, quer dizer, porque o impacto e a cena voltam como flashes na memória. Não me feri fisicamente, graças a Deus.
Enquanto prestava depoimento na polícia o velório do rapaz acontecia em Isifya. Tennessee, Silvania e Leandro discretamente representaram a Comunidade e foram também eles rezar. O bispo veio ao velório e deu uma palavra fortíssima de consolo e de exortação para os jovens presentes e para os pais a respeito da cultura da adrenalina, do vencer os limites irresponsavelmente, da cultura de morte que não vem de Deus... Sua presença também nos protegeu, me protege.
Sinto-me muito assustada. Sofrendo demais quando penso na dor da família. Sem dúvida um dos maiores exercícios é o da aceitação da irreversibilidade dos fatos e da confiança irrestrita no amor do Senhor que conhece toda a dor humana e todas as dores, neste novo patamar e experiência de dor que vivencio. Benditos sejam todos os teus caminhos Senhor compassivo e cheio de amor! Eu estava dirigindo, eu era responsável...poderia ter sido diferente? Nem eu mesma posso dizer. Fiz o que melhor sabia e estava atenta e alerta, ciente de tudo o que acontecia ao nosso redor. Só não podia imaginar que a moto tomaria aquela direção suicida que poderia, por questão de poucos centímetros, ter atingido a porta do carona em cheio e matado a Viviane e a mim, ou sabe Deus quem mais... Chega a dar um arrepio na espinha, mas foi exatamente o que o policial nos disse ontem, quando se despedia de mim e da Lorena. 'Vocês tiveram sorte, muita sorte...', ele repetiu. É claro que há gratidão e consciência de que nossas vidas foram poupadas pela misericórdia do Senhor em cujas mãos todos os tempos da vida de cada pessoa, está depositada.
Não consigo crer que fosse perfeitíssima vontade de Deus que este jovem morresse do jeito que morreu mas confio que Seu Amor acolheu Edmund Rohana e este mesmo amor sustentará seus pais, irmã e irmã e avós. Peço orações por eles. Dentro de mim há uma imensa dor e um misto de sentimentos... Peço orações por mim também. Peço também que ninguém se assute pois estou bem, mesmo sabendo que preciso chorar e chorar para desafogar a dor, o susto, o sofrimento por tudo que aconteceu. Não tenho me atormentado nos pensamentos apesar do sofrimento e do desgaste. É o Esposo que me une a Ele de um jeito novo, às vésperas da Quaresma para me ensinar sobre o Amor escondido na dor, sobre o mistério da morte e da ressurreição... mas não tem sido dias de muitas palavras, ao contrário, é o silêncio que tem imperado, mas eu sei em quem coloquei minha esperança.
Por favor rezem por nós, como missionários, por mais este desafio a ser enfrentado. Rezem por mim, repito. Rezem pela Viviane. Rezem pelo jovem que faleceu e por seus familiares neste tempo de perda e morte. Amanhã todos os outros cinco que estavam no carro terão que dar testemunho e o processo continuará seu curso. Rezem também por este intenção. Rezem pelos jovens para que possam conhecer o Senhor e o Seu Amor dando sentido verdadeiro à vida. Rezem por todos os que trabalham com a juventude. Enfim, rezem e coloquem estas intenções nas Eucaristias que participarem.
Minha carteira de motorista está suspensa e por três meses estou proibida de sair de Israel. Se tiver que fazê-lo por alguma emergência somente com autorização expressa e especial do Departamente de Polícia. Mas pela internet posso escrever, desabafar, dar notícias, pedir oração e fazer a inigualáve experiência de 'comunhão dos santos'.
Amanhã darei mais notícias, se Deus quiser. Shalom!

4 comentários:

Anônimo disse...

QUERIDA ELENA, NÃO CONSEGUI LER A SU ANARRAÇÃO DO SÁBADO... É MUITO TEXTO PARA A MINHA LUPA... TENHO IMPRESSÃOQUE LI QUE HOUVE UM ACIDENTE, MAS SE VOCÊESTÁ ESCREVENDO NO BLOG É PORQUE 'ESCAPOU', NÃO É? SE VOCÊ PIDER ME DAR ALGUMA NOT´CIA PELA E-MAIL ACHO BEM. sUA TRINITY

Viviane disse...

Tia
"A minha'alma como um passaro escapou do laço que me armará o caçador! " A Mão de Deus é salvifica! E experimentamos ela! Os vidros na testa e nos olhos, a cicatriz da cabeça colada, as dores do corpo.... as suas dores e lagrimas... tudo unido ao sofrimento de Cristo, irão salvar muitos jovens! eu creio nisso e sei que vc crer! Amo você! Obrigada pela sua amizade, pelo seu amor!

solange disse...

Querida Elena,
Diante de todo o aconteceido, como não como não afirmar tb, "Quem como Deus?!
Nos seus designios e permissões insodaveis, todos os porquês, estão Nele e tem um sentido!!
E a nos o verdadeiramente o silêncio!
O silêncio do pequeno,perdido e encontrado no unico grande!!
Estamos unidos em oração!
Shalom!

Anônimo disse...

Elena, estou rezando por vocês.

bjs
Shalom!!!

Raiane
Petrolina-PE
www.amigosshalompetrolina.blogspot.com