quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Uma História de Amor



Sabe quem é essa senhora com carinha de vó? É uma santa protestante! É uma senhora luterana francesa, celibatária, que há 41 anos vive na Palestina entre os pobres, na divisa de Belém e Betânia, que se chama Marylene Shultz. O nome dela é bem alemão porque nasceu perto da fronteira e sua família é de origem suíça. Foi parar na Palestina como voluntária, só por um ano, a convite de uma amiga suiça e nunca mais voltou pra França. Tinha 36 anos na época e como estava meio desiludida no trabalho, pediu demissão e aceitou o convite para lidar com crianças órfãs, separadas em duas casas, para meninos e meninas, e mais duas outras casas para crianças 'handicaped' ou especiais como se diz no Português polticamente correto. A Instituição chama-se 'The Four Houses of Mercy', hoje dirigida pela filha da fundadora, uma cristã ortodoxa palestina, que a criou na década de 40, logo após a guerra e na época da criação do Estado de Israel. Tudo começou a partir de um casal de crianças que foi dado a esta senhora por uma vizinha, viúva, que bem jovem morria de câncer. Esta mãe de família, mulher de Deus, muito rapidamente se viu cercada de crianças e de pedidos de outras mulheres e famílias com filhos excepcionais, que conhecendo sua caridade, pediam que ela as ajudasse a criar os filhos. Assim nasce e se sustenta totalmente da Providência Divina, e do trabalho voluntário de bons corações europeus e árabes, esta Casa da Misericórdia.

Estive na casa da Marylene com a equipe de reportagem da Canção Nova que está fazendo uma série de programas sobre personalidades e instituições na Terra Santa, que cuidam dos pobres e dos doentes, de crianças e de idosos, vivendo uma vida missionária de maneira pouco convencional. Como precisavam de alguém fluente em inglês para entrevistá-la, e eu estava de folga passando o fim de semana com eles para conhecer Jerusalém e um pouco dos lugares santos, tive o prazer de ajudar e de conversar com a Marylene e ouvir uma história de vida simplesmente sensacional, bárbara, como diria a Hebe Camargo! Sem brincadeira, depois de tê-la ouvido contar sobre estas décadas servindo como professora e mãe de dezenas e dezenas de crianças, única e exclusivamente por amor ao Evangelho e às crianças, não paro de pensar na força da santidade escondida na vida dos que são bons que, com sua generosidade e vida doasa fermentam este mundo e o levedam sem que a gente saiba, tome conhecimento, ou sequer imagine! A diferença é que pela santidade do amor a Jesus e à Palavra de Deus santificam o mundo e 'atraem a misericórdia' do Senhor, indo muito além do puro voluntariado ou da filantropia. Esta senhora constrói com sua vida o Reino de Deus! Ela é que deveria se chamar 'A Preferida' e ser tema de novela!

Ela nos contou que não quis ir embora depois do primeiro ano porque pensou que não seria bom para as crianças, mais ainda as com deficiências físicas e emocionais, perderem e trocarem a cada ano de referencial afetivo, daí que foi ficando, foi ficando, e mesmo agora, já aposentada há 11 anos, não vê mais sentido nenhum em voltar para a França. Ela não é mais a pessoa responsável pela Instituição, mas quebra todos os galhos e está sempre presente em todos os imprevistos que acontecem no prédio onde as crianças e jovens se alojam (aproximadamente 90). Sempre trabalhou em parceria com voluntários após voluntários, ao lado de sua fiel amiga, suiça, que veio com ela, mas que já voltou para a Europa. Também há mulheres e homens que foram ajudados e criados pela Instituição e que hoje são voluntários e parceiros. Marylene nunca fez questão de ser chamada de 'mãe' pelas crianças pois muitas delas eram deixadas no orfanato só temporariamente por problemas de relacionamento, ou por outras questões, tendo pais e mães biológicos. Mas as crianças eram livres para chamá-la como quisessem, de mãe, de tia e, hoje em dia, de avó. Algumas foram deixadas na Instituição com meses de idade e estas a apresentam sempre como mãe, ainda hoje. Inclusive quando eu lhe perguntei quantos filhos ela tinha ela não soube responder porque o tempo de convívio e a relação com cada criança e jovem, menino e menina, variou muito, mas não deixou de sorrir como boa mãe orgulhosa e me respondeu: 'tenho filhos em vários países do mundo. Também tenho 60 netos e faço eu mesma presentinhos para eles, tipo joguinho de palavras para aprenderem inglês e jogo da memória. Faço-os eu mesma, explicou, para que as mães não tenham ciúme dizendo que comprei um presente mais caro para um do que para outro. Além de mais minha aposentadoria é bem pequena para cobrir os custos de 60 presentes por ano!'.
Por causa da cultura árabe muito rígida ela nunca negou seu Cristianismo, mas criou as crianças dentro das tradições que cada uma tinha, na maioria muçulmana, pois muitas eram órfãs e foram abandonas mas tinham parentes nas vilas palestinas e para se casarem, trabalharem e poderem ser novamente aceitas na comunidade, quando maiorezinhas, precisavam ter a mesma identidade cultural quando pudessem sair de casa. Jamais deixou que uma jovem ou um jovem tivessem que ir embora porque tinham completado 18 anos. Só saíam quando tinham condições de se manterem e sustentarem mesmo que de maneira muito simples como acontece com quem vive a dureza da realidade dos territórios palestinos, dentro de Israel. Daí que, além de saber o árabe Marylene foi aprender as festas e as tradições muçulmanas para vivê-las na casa e ensiná-las aos 'filhos'. Que lição de amor e respeito!
Marylene teve marcante atuação política, pacífica e desarmada, mas aberta e comprometida durante a Intifada do ano de 98, se não me falha a memória da data, quando o exército israelense aterrorizou árabes palestinos, prendendo, matando, torturando. Um dos 'filhos' de Marylene de 14 anos desapareceu numa noite que jogava futebol com uns amigos, logo na hora do toque de recolher e por dois anos, com outras mães, ela procurou em todo o Estado de Israel por este jovem desaparecido. Acionou todos os seus contatos e amigos europeus, denunciando a tortura, mas nunca encontrou o corpo do 'filho'. Ela disse que este jovem mudou a sua vida porque levou-a a se comprometer até o fim, até o fundo na luta pela justiça. Durante dois anos, semanalmente, Marylene e outra mãe ergueram uma faixa pedindo paz e justiça para os jovens palestinos desaparecidos, ficando de pé uma tarde inteira diante da maior delegacia da região, ou coisa que o valha, silenciosamente, protestando. Ela nos contou que foi assim que acabou chegando o mais perto que pôde das informações que confirmaram que realmente seu 'filho' tinha sido preso e torturado, mas ela nunca soube quando e como ele morreu. Seu corpo nunca foi achado. A maior surpresa porém, nestes dois anos, nos contou ela, foi o dia em que o chefão da polícia israelense, uniformizado e coberto de insígnias militares, segurou-a firme pelos braços e olhando-a nos olhos repetiu por duas vezes: 'a senhora não faz idéia de como é importante isso que a senhora está fazendo, esta denúncia pacífica e silenciosa! A senhora não faz idéia'.
Marylene mora numa casinha muito simples e bem pobre. Aos 77 anos é ativa e inventadora de moda. Agora, que tem menos o que fazer, decidiu ensinar às crianças e aos jovens da vizinhança, a jogar xadrez. Não quer que eles fiquem sem ter o que fazer pelas ruas, ou vendo televisão. Quem quiser, pode ir à casa dela nos dias combinados. Mas para que os mais pobres não se constranjam - e há muitos pobres nesta região próxima dos territórios palestinos, onde os cidadãos são tratados como gente de segunda e terceira categoria - não há lanche, nem suco, nem nada. Quem vai lá é para jogar e nada mais. Ela que já estava mais do que na idade de 'descansar' disse que não se sente cansada, só a vista que está pior (passou a entrevista tentando se lembrar onde tinha esquecido seus óculos). E, pelo jeito ela tem 'açúcar' e atrai as pessoas, porque as crianças e os jovens enchem a sua salinha e varanda para jogar xadrez, semana após semana, nos tabuleiros e peças criados, e recortados por ela mesma. Vimos as fotos.
E a palavra de sabedoria, por fim, que me deixou mais boquiaberta foi a que Marylene me deu quando lhe perguntei sobre o futuro, sobre como ela percebia que seria o futuro da Instituição Four Houses of Mercy. Ela sorriu e disse que nunca se preocupou com isso porque o Evangelho ensina para não nos preocuparmos com o dia de amanhã e que ela sempre viveu assim. Que ela não faz a mínima idéia do que vai acontecer no futuro, mas faz sempre o melhor que pode no presente para que o futuro das pessoas seja o melhor possível. Eu nunca vi tanto desapego numa pessoa! Ela não tomou para si nada da Instituição, nenhum direito ou privilégio, nenhuma plaquinha de reconhecimento, e nem acha que mereça. Disse que somente viveu aquilo que achava que era para ela viver. Ponto final. A única coisa que ela tem aos montes são fotos, fotos de muitos dos seus filhos e filhas, alguns mortos, alguns presos, outros bem casados e felizes, outros nem tanto, muitas histórias de uma verdadeira família, muita vida vivida no amor do Evangelho.
Saí desta casa com muita consciência da minha pequenez e com o coração transbordando de alegria e gratidão porque verdadeiramente o Reino de Deus está no meio de nós e foi revelado aos pobres e aos pequeninos!

3 comentários:

Anônimo disse...

QUERIDA ELENA, COM O FUNDO VERDE ESCURO, NÃO CONSEGUI LER SEU BLOG, NEM COM A LUPA. POR QUE NÃO DEIXA O FUNDO EM BRANCO? SE FOR POSSÍVEL, GOSTARIA DE SABER O QUE FOI ESCRITO NESTE BLOG... TÁ? BEIJOS TRINITY

Anônimo disse...

QUERIDA ELENA, ESTE FUNDO ROSADO FICOU ÓTIMO! OBRIGADA! JÁ DEI A CÓPIA PARA UMA DAS IRMÃS LEREM. DEUS A ABENÇÔE. TRINITY

Rocaia disse...

Miga linda,cada foto mais linda que a outra. pena não ter podido te dar um super abraço neste dia tào majestoso. Quando poderemos nos falar via fone? Te amo,trago-te comigo em meu coração. Bj da Roquinha