sábado, 26 de fevereiro de 2011

Prato Cheio

Eu tenho muito que agradecer no dia de hoje por esta semana que termina, tão cheia de graças e novidades. Partilho algumas: a Silvinha chegou em casa na terça-feira, dia 22, coincidentemente festa do quarto ano do Reconhecimento Pontifício da Comunidade e do Carisma Shalom, recebendo também ela o reconhecimento médico de que estava na hora de começar nova fase de vida com seus pais e muitos 'tios e tias' da Comunidade, em Haifa. E haja emoção nos preparativos para deixar o quartinho em ordem na temperatura necessária - ainda estamos em pleno inverno - para quem sai da incubadoura depois de dois meses e algumas semanas! Vi-a na quarta-feira e tomei-a nos braços por um tempinho e ela é simplesmente lindinha, bem feitinha, colorida, mínima mesmo com seus mais de 2.300 kg! Ainda não tirei foto mas o farei em breve. Ainda está se adaptando à vida nova, ao leite, à dormida, à evacuar na hora certa... tudo é novidade e Silvânia e Tennessee estão numa escola intensiva, tipo imersão, como todos os pais de todos os tempos. Tudo é graça de Deus e Ele tem sido extremamente fiel e providente e presente. Não lhes tem faltado nada.

Também ontem, 25, D.Elias Chacour comemorou o quinto ano de sua sagração como bispo católico melquita da diocese da Galiléia mas a missa solene será amanhã. Não é tarefa pouca ser discípulo e pastor no Pastor, que é Jesus, de rebanho tão especial de diocese tão bíblica... Rezemos por nosso bispo, pelo clero, pela Igreja Católica na Terra Santa, pela unidade, pela paz e para que as graças recebidas no Sínodo sejam encarnadas no tecido e na vivência diária da fé e da vida dos que são cristãos. Também aqui há urgência de uma nova evangelização e o próprio Espírito Santo tem preparado o terreno dos corações trazendo comunidades novas e leigos para servirem nas várias realidades de Igreja de Israel. Este é o nosso caso, como Carisma e Comunidade Shalom.

Mas depois destas notícias eu gostaria de partilhar dois fatos mais pessoais. Primeiramente quero falar e agradecder pela vida do Papai, para nós Papá, em italiano, que há 29 anos viveu sua páscoa, ainda tão novo, aos 48 anos, deixando sua presença forte em nossos corações e em nossas vidas e família ao longo de todas estas quase três décadas. É interessante porque os netos e netas que só conheceram o vovô William de fotografia e de casos e mais casos - ô família que gosta de contar caso! - o amam e sentem falta dele como se com ele tivessem convivido. Esta é mais uma prova de que o amor verdadeiro é eterno e ultrapassa as barreiras do tempo e do espaço, do contato físico, e nos remete ao para sempre, à eternidade.

Papá não tinha um temperamento fácil e todos nós já tivemos que perdoa-lo pelas feridas que nos causou nos relacionamentos pessoais e interpessoais no seio familiar. No entanto, vejo nisso o paradoxo incrível do amor: exatamente porque tivemos que perdoa-lo tantas vezes na experiência da fragilidade humana e por ele não ter sido um pai ou marido perfeito, o amamos ainda mais intensamente e nos sentimos amados e cuidados por ele pois sua presença jamais era uma presença apagada, indiferente ou despercebida.

Quando Papá teve sua experiência pessoal de encontro com Jesus a ponto de ser convidado para ser ministro da eucaristia, sua vida aos poucos foi sendo ordenada pelo amor de Deus que chegava a ele pelos sacramentos, pela oração, pela experiência de vida comunitária, pelo serviço na vida paroquial com a mamãe, no encontro de casais, no testemunho de justiça e de fraternidade no trabalho... Vi o Papá sofrer intensamente quando recebera uma ordem da diretoria da empresa multinacional onde trabalhava, orientando-o a despedir x número de funcionários que para ele e como ele eram pais de família e não somente funcionários. Vi o Papá abrir-se à ação do Espírito Santo e tornar-se um homem de mais oração, desejoso de melhorar e de ser mais dono de si por amor a Deus, à mamãe e aos filhos, e também aos irmãos e amigos de convívio. Vi-o buscar a confissão quando necessário, se bem que morresse de vergonha de D.Elia Volpi por ser italiano como ele, vi-o fazer amizades novas no Bom Pastor, em Copacabana, e simplesmente com sua presença bonita e simpática atrair pessoas para Deus, de volta à Igreja. Papá tinha amigos padres e amigos mendigos, diretores e subalternos, e os médicos que cuidavam dele por conta de um coração meio 'chumbado' se tornaram também amigos. Era um tipo bastante charmoso, muito bem cuidado pela mamãe que mesmo com pouco dinheiro, sempre teve um bom gosto especial para lhe dar presentes e deixa-lo elegante no conjunto único que só ele sabia compor com a barba e os cabelos brancos sempre meticulosamente cortados e cheirosos. Papá era perfumado e até hoje meus irmãos caçam o tesouro que se chama colônia Pinho Campos de Jordão para serem cheirosos como o pai e de certa maneira perpetuarem sua presença e lhe prestarem homenagem masculina. A braveza e os rompantes de temperamento do Papá eram dolorosos e nos causavam medo, muitas vezes justificados por seus traumas de infância passados na II Guerra na Itália, mas sua capacidade também de nos amar em atos concretos de surpresa, de brincadeiras, de presença, de abraços e tapas de amor para nos manifestar carinho e ternura, são inesquecíveis. Ele sempre nos queria ensinar e nos fazer aprender aquilo que ele gostava, e nos ensinar a fazer bem, obviamente, pois 'dar jeitinho' era o que ele mais odiava na cultura brasileira. Qual de nós não aprendeu a pescar, a nadar no mar, a fazer gnochi, a limpar peixe, a beber álcool na medida certa nos eventos sociais, a curtir ficar em casa mas também abraçar uma aventura de preferência acampando nas praias do litoral carioca? Qual de nós não achava o máximo quando ele nos abençoava em italiano, quando o ouvíamos cantarolar uma ópera, quando nos trazia um chocolate de surpresa, nos ensinava a educação à mesa, ou simplesmente quando íamos todos e nesse todos tinha que ter a presença dos primos 'Pimentéis' nossos irmãos, passear no Aterro do Flamengo, tomar sorvete no Bob's do Largo do Machado depois da missa? Como esquecer a força que ele tinha nas mãos, sua letra de desenho tipicamente italiana, o domínio que tinha da língua portuguesa, e seu sorriso que sorria com os olhos?

É... hoje acordei com saudade, com gratidão a Deus pelo pai que tive, eu e meus irmãos, Adriana, Marco e Bill (que é William como o pai). Com certeza não o pai perfeito mas o melhor pai que o Senhor tinha para nos dar e por isso a certeza de que se ele pudesse não nos teria feito sofrer um minuto sequer e que lá da eternidade, mergulhado definitivamente na presença e no amor de Deus, o Papá intercede por nós para que sejamos tudo o que Deus sonhou para nós. Como mais velha que sou usufruí mais da presença do Papá e me lembro que uma vez ele falou para mim de uma descoberta que tinha feito do Evangelho de S.Mateus quando o evangelista fala que da figueira só se pode esperar figos e não abrolhos... Creio que do Céu ele intercede por nós para que individualmente e na missão particular confiada por Deus a cada um de seus quatro filhos mais a mamãe, a quem aguarda na eternidade, possamos gerar no que somos e fazemos, estes figos bons, os frutos do Espírito Santo, saborosos, os frutos da santidade e da vida bem vivida. É bom saber que nosso Pai um dia disse Sim a Jesus e se voltou para a Igreja e experimentou o início de uma vida nova que ele hoje na comunhão dos santos vive plenamente.

Hoje também, coincidentemente e talvez, paternalmente como sinal da intercessão do Papá, dou graças ao Senhor pelos nove anos de sobrevida que ele me dá após a mastectomia radical direita, sofrida em 2002. Estou bem e mantenho meus exames anuais em dia - acabei de fazê-los - e espero viver ainda muitos anos no centro da vontade de Deus, como consagrada, missionária - meu espírito é missionário mesmo que eu volte à minha casa mãe, ao Rio de Janeiro - e em breve, como celibatária por amor ao Reino dos Céus. Conheço a minha pequenez e fragilidade, mas fazendo memória da minha vida familiar no dia de hoje e a partir dela de minha vida já de algumas décadas, tenho tanto a agradecer... e se partilho aqui publicamente esta quase confissão o faço no intuito de testemunhar  que creio que o amor é sempre a palavra final nas complexas relações humanas se nos abrimos a Deus e deixemos que Ele nos cure, nos transforme, nos ensine a perdoar e a ver sua mão a nos dar o melhor, sempre o melhor.

6 comentários:

nunu disse...

Assim voce nos mata de emoção! Beijos e beijos!

Aladir disse...

Muito lindo poder contemplar a obra de Deus nas nossas vidas e Sua misericórdia em nossas fragilidades. Deus a abençoe por um testemunho tão simples e tão concreto. Lembra-me nosso inesquecível Papa João Paulo II que nos abriu as portas da santidade ao meio familiar. Pais santos os seus! Obrigada!

Um pouco de mim... disse...

Helena, gostei demais do seu testemunho de cura, da história de seu pai que tanto amou e perdou. E ainda pela filhinha da Silvania e Tenessi. Um abraço para eles. REzemos uns pelos outros. Um abraço em Cristo. Angela

Anônimo disse...

Elenê,
Prato cheio. Satisfeito!
Bjs

LEONOR שלום disse...

Seja a nossa alegria, o estar sempre abandonada nas mãos de Deus, mesmo que nos custem lágrimas, eis o leito das almas esposas. Beijos e saudade!

Anônimo disse...

Obrigada pela sua partilha.

Abraços
Raiane
Petrolina-PE