sábado, 4 de outubro de 2008

Eleitos de Deus

Por ser hoje festa de S.Francisco de Assis, o baluarte masculino da vocação Shalom, (Sta.Teresa d'Ávila é o baluarte feminino), nós tivemos uma pequena celebração na varanda da nossa casa, antes do café da manhã, para louvarmos o Senhor por tão grande santo que nos 'empurra' para Deus, sempre. Francisco nos ensina a tudo dar e a amar a Dama Pobreza, ainda hoje, no século XXI, para que Deus esteja no centro de nossas vidas, não como uma ideía, mas como realidade. Ele nos fala também do coração pequeno e simples, sempre grato, sempre disposto a louvar o Pai das Misericórdias. Mesmo tendo sido breve, o momento de oração foi marcado pelo abandono nas mãos do Espírito Santo, para que Ele leve à plenitude a obra iniciada em nós, leigos consagrados na vocação Shalom. Como sinal simbólico de nosso desejo de tudo dar, de sempre recomeçar, de novamente perdoar, cada um plantou pequenas sementes num pedaço do jardim, como sinal de que continua disposto a morrer para si mesmo para que possa haver algum fruto para o Reino de Deus. Assim que terminamos, tiramos esta foto. Vou aproveitar para tecer algum comentário sobre cada pessoa das duas missões, de Haifa e Isifya, que até segunda ordem, moram todos juntos - os rapazes dormem num apartamento que existe no subsolo do asilo, e fazem todas as refeições e atividades comuns na casa onde moro.
Na ordem: atrás temos a Yara, cearense de Fortaleza, que tem toda a família, pais e irmã, na Comunidade de Aliança. Ela é a atual formadora comunitária, há dois meses foi transferida para cá de Nazaré, e é a caçula da casa. Ela tem um jeito meigo, feminino, e muita vontade de amar e acertar. Toca violão e tem uma voz bela e afinada, forte, que surpreende diante do seu corpo pequeno e magro. Gosta de plantas e de desenhar. Se determinou a estudar o árabe e se comunica bastante bem, mais agora que exerce seu ministério no asilo. Na frente: Andréa, baiana de Salvador, aliança missionária como eu, a quem vim substituir na Cúria, no trabalho com o bispo, grande radialista. Rimos muito com suas distrações e quando desata a fazer programas de rádio como se estivesse ao vivo. É apaixonada pela lingua inglesa e quer muito servir a Deus, encontrando seu lugar na Vocação e na Comunidade. Está aqui há um ano mas não fala o árabe. Escondida atrás do noivo, vemos a Silvânia, pernanbucana, 'mãe da casa', batalhadora, mulher inteligente de grande coração. É lindo vê-la louvar o Senhor. É uma irmã e tanto e é quem tem a paciência de passar henna no meu cabelo de três em três semanas. Trabalha no asilo e é a dispenseira da missão, como se diz nos mosteiros, aquela que tem a árdua tarefa das compras da alimentação, com o dinheiro sempre curto.Tennessee, de quem eu falo sempre e que mora aqui há 4 anos, é um pequeno grande irmão, cearense até a medula que , com a Silvânia, formará uma bela família na Terra Santa. Terão filhos israelenses-brasileiros que aprenderão o árabe e o hebraico, além do português, e com seus pais, serão instrumentos de paz e reconciliação neste país. Acho que eles nunca mais voltam para o Brasil. O Tennessee ama a cultura árabe, os cristãos árabes, e quer dar a sua vida até o fim por este povo, para que o Shalom de Deus, a salvação chegue ao coração do homem que mora aqui, seja árabe, seja judeu. Ele é um homem de oração que se parece com o Moysés. É brincalhão, muito centrado e disposto a concretamente sacrificar-se e calar-se para o bem comum. Sabe o que quer e é sempre bom aprender e conversar com ele. Depois vem o Tales, cearense também, que está voltando para o Brasil em novembro, depois de um ano e meio aqui, trabalhando com os jovens. Talvez fique mesmo em Fortaleza servindo nas jornadas de evangelização que são sua grande paixão apostólica. Segurando o quadro de S.Francisco temos o Leandro, do Amapá, que do alto de seus 1,88cm esconde um bondoso coração, brincalhão, às vezes infantil mas responsável e sedento de Deus. Trabalha no asilo com os idosos. É o meu sobrinho e companheiro de caminhada, de cozinha, de lavação de louça. Nos damos muito bem! Ao meu lado temos a Viviane que é a alegria da casa: espontânea, barulhenta, adora doce - como eu - cozinha muito bem, é prestativa, dinâmica, simpática e responsável. Tem as lágrimas no bolso, como se diz na minha família, mas também o coração. É a única que fala hebraico e é quem toma conta da pastoral judaica em Haifa, além de trabalhar no Centro de Evangelização. É outra para quem virei tia! Por fim, a Lorena, responsável pela missão de Isifya e de Haifa, e quem está há mais tempo aqui: 6 anos. Tem muita experiência de inculturação, fala bem o árabe e ama este povo e esta terra. Boa administradora, já sofreu e superou muitas dificuldades e desafios na missão, inclusive o mês de guerra em 2006, junto com Viviane e Tennessee. Pessoa de humor estável, brincalhona, muito reservada, mesmo sendo boa de conversa e boa de garfo. Tem profundo amor e compromisso com o Senhor e com a vocação. Se santifica administrando o asilo, os funcionários do asilo, e respondendo por todos nós diante das 'autoridades locais'. Eu a chamo de gata, por causa do seu jeito meigo mas ressabiado, mas é uma pessoa em quem se pode confiar. Ela foi um grande instrumento de Deus ao orar por mim na reciclagem de 2007, para que eu acabasse partindo em missão...e viesse parar aqui!


Este é um detalhe mais próximo meu com o ícone e a famosa oração de S.Francisco. Também queria mostrar o meu vestido novo (pode rir!), que na verdade é uma bata, que eu quis usar neste dia de festa, de começo de meia estação. Festa de S.Francisco e festa em Ibillin, pela ordenação de dois novos sacerdotes (casados!), na diocese da Galiléia. Ao sairmos do café da manhã festivo, viajamos meia hora para assistirmos o esfuziante e cansado bispo Elias Chacour, sagrar dois novos sacerdotes para o povo de Deus, para a vinha do Senhor como ele disse na homilia. Foi linda a cerimônia com ritual próprio, greco-melquita, cheio de música e muita emoção. Não foi tão solene quanto outras ordenações que já assisti, no rito latino, mas valeu a pena, e teve seu encanto e unção próprios. O que mais me chamou a atenção foi o fato dos padres serem casados e ser a família, esposa, pais e os filhos já jovens (no caso de um dos neo-sacerdotes que já passou dos 40), a lhes entregarem os paramentos. Foi emocionante! Nesta foto abaixo temos o bispo num momento da cerimônia abençoando o povo. Ao seu lado temos dois abunas que trabalham na Cúria: Maher e Fouzi.


Outro momento da celebração, após a leitura do Evangelho, feita pelo neo-sacerdote, Abuna Michel, quando ele entrega o Evangelho ao bispo.


Consegui tirar esta pérola de foto, com este casal idoso de uma vila bem do interior da Terra Santa, que mostra como se parece um casal árabe-cristão que já vivia nesta terra antes de Israel ser criado. Na maioria destas vilas, estes cidadãos da terceira idade são, na maioria, pastores, cristãos, falam somente o árabe, tem quase nenhuma influência judaica e tem um jeito acentuadamente humilde e santo, radicalmente comprometidos com Jesus e com o Evangelho. Eu fiquei encantada por ter sido apresentada a eles e por descobrir, na minha ignorância, que este véu usado pelo senhor não é típico dos muçulmanos, mas é anterior à religião de Maomé, é típico dos árabes, beduínos, inclusive dos cristãos. Bendito seja Deus em todos aqueles que são seus!



Minhas palavras finais para quem me leu até aqui, foi a alegria de pensar mais uma vez nos insondáveis caminhos de eleição de Deus, que escolhe Franciscos e franciscanos no decorrer da história, árabes, palestinos, há dois mil anos, latinos, melquitas, de todos os ritos, todos católicos e, nestes tempos atuais, nós leigos, para levarmos Sua Palavra e sermos fiéis testemunhas de Sua Ressurreição e de Sua Cruz onde estivermos. Como shalomita, esta vocação tão nova diante da grande Tradição e riqueza da fé Católica, mas não menos suscitada pelo Espírito, e confirmada pela Igreja, no dia de hoje, com Francisco e todos os santos e santas de Deus, O louvo por poder conhecê-lO e por entender cada vez com mais clareza, que esta é a pérola mais preciosa que se pode receber na vida!

Um comentário:

bill.sala disse...

Eu estava lendo,
justamente na hora que a Lê entrou on line, chegando lá.

Que bom, louvei ao Senhor, ter essa internet pra me aproximar de vocês.

Te amo Ena.